QUEM VEM COMIGO

quinta-feira, 4 de junho de 2009

CONCLUSÃO




.
Enquanto
Fico aqui
pastando,

torrando
os meus miolos

moles


chego a conclusão

viver é o problema
não a solução

(Elza Fraga)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

CONSELHO

.
Sem grito, sem riso
sem choro, sem nada

apenas

a mão estendida
a cara lambida,
sofrida, chorada
largada na estrada

Enfia nos bolsos
as mãos recolhidas
e os lanhos do rosto
a sujeira invasiva
o medo
o desgosto

e parte pra outro!

(Elza Fraga)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

TENHO MEDO

...
Tenho medo
de espiar o segredo
guardado no fundo
do seu mundo
interior

e descobrir
que lá não estou

tem outra
enclausurada
não sai pra nada
trancada
nos pensamentos,
momentos,
lembranças, saudade

parida e doída
verdade mais certa.

E se eu soltar
a prisioneira
corro o risco
de perder a vaga
quarto e sala
sem dependências

na sua consciência
incompleta

(Elza Fraga)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

AVESSOS

.
Tô no sufoco, no osso,
no caroço,
a cara revirada
e o pescoço
olhando pra ontem
abestado.

acho que dormindo
dei mal jeito
no corpo

devo ter virado
do avesso
e nem senti
e fiquei andando
por aí
o dia inteiro

do lado errado

deixando a mostra
o feio

do chuleado

(Elza Fraga)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

DOWNLOAD




.
Cansei
de amores suados
homens mutáveis
ao sabor do vento
com cara de tempo
ruim.

Cansei de histórias
sem mim
apenas o ego
e a barriga do cego
que no fim
nem me enxerga
mais

Então nem vem
que não tem
porque agora
eu quero paz,

não te mete

que, de hoje em diante,
só namoro na internet.

(Elza Fraga)

RODOPIADOS




.
Dança comigo
colado
encosta teu corpo ao meu
tão encostado
que não passe
sequer um pensamento
entre
o meu e o teu
ventre

Depois
d'eu tonta ou louca
me toma
um beijo da boca

leve o que puder
e quiser
de mim

E então
por fim
me adormeça
ninando
assim
coçando a cabeça
cantando
antigas cantigas

e desapareça
nas sombras...

Que a tua presença
me assombra
as noites.

Preciso de uma overdose
de um porre
de prazer
de engolir teu gosto
inteiro
sem pudores
regras, leis
pra tomar vergonha
e te esquecer

de vez!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

MEMÓRIAS DERRADEIRAS

.
Levantei sorrateira
sai rasteira
como cobra sinuosa
me perdi no mundo

Se profundo foi o sofrimento
não me arrependo

porque morei
eternamente moça
a vida inteira

nas suas memórias derradeiras

(Elza Fraga)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

CHEIRO DE FÊMEA





Um jato de Quartz
atras
da orelha esquerda
da direita
metódicamente,
econômicamente

Enquanto penso
na carestia
nos preços
pela hora da morte
e me arrepia
a idéia
embora remota
de ter que abrir mão
do perfume,
por caro!

Ah, eu sem cheiro
não sou nada
sou uma fêmea
qualquer
nem se nota
nem se faz reparo

Mas com o Quartz
borrifado
atras da orelha
nos pulsos
na nuca
(atras do joelho)

Viro eu,
viro a mesa,
viro o jogo
olho no espelho
e vejo a beleza
que vem do cheiro

Abro a porta e saio
poderosa,
esqueço idade,
ano, tempo,
balançando
a juba
ao sabor do vento

-------------------

nem um salto quinze
agora me derruba

(Elza Fraga)

terça-feira, 12 de maio de 2009

MIMO DE AMIGO

Ganhei este poema do Betusko,
amigo querido que me pegou com a boca na botija,
corujando poema de filho, no Portal Literal.
Brigadim, meu querido, você muito sensibilizou
a poeta.
Meu carinho em forma de bitokitas, todas de luz, procê.


Para Elza Fraga

Olhem, amigos!
Flagrei a Fraga
flagrando seu filho.
Bom poeta este menino,
destes de abrir janelas e postigos,
de fincar a cunha nas rachaduras da alma
de cortar nos dentes, angústias e canduras.
Oxalá a Poesia os envolva – mãe e filho
e com sua baba divina os proteja
para todo o sempre.

Betusko
(Roberto Lopes Jesus)
:)

domingo, 10 de maio de 2009

PARENTESCO

(A todas as mães que, como eu, não conseguem ser santas.
Pedem somente o direito a condição de mulher.
E acham que já está de bom tamanho!)

.
Tudo que sei
e porque lembro vagamente
é que pari.

Pari com dor
e pari com corte

pari sem sorte

Então sou mãe!

És mãe?!
Perguntam
num assombro
e eu respondo:
Sou.

seco assim
e basta

que ser mãe é tarefa para poucas?
As que tem cara de mãe
jeito de mãe,
gesto de mãe

não me copiam, com certeza

As que põe mesa,
fazem cama,
arrumam casa

não são da mesma forma

são estranhas criaturas
abdicadas do seu ser
pra ser um outro ser
qualquer...

porque parir
é para todas
com a mínima competência
em arrumar parceiro

mas ser mãe,
destas com zelo
no olhar
só para as santas

não pra mortal
como eu
vivendo em corda bamba

e eu caramba,
por ironia
sequer
consigo ser só mulher
por todo um dia...

(Elza Fraga)

NOTICIÁRIO

.
Deu no jornal

Atrás da mesa.

Testemunhas:
Um computador
lâmpadas acesas
e o zelador
(escondido)

Resultado
inesperado
positivo

se for menino
Noticiário,
se for menina
nome nem tem
escolhido
(ainda)

mas quando crescer
vai ser
professora, médica
dentista,

nunquinha
jornalista!

(Elza Fraga)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

SEM UM PINGO DE MODÉSTIA




.
Eu nunca ensinei nada
a ninguém
o que sei nem a mim
me basta
não tenho pedigree,
não tenho pose,
não tenho casta

Nunca escrevi uma linha
diferente,
desse tipo de verso
que preste,
e que algum ausente
da vida
lesse e dissesse
nossa, é quase uma prece
pra se orar
nas horas derradeiras


Nunca fui linda,
mas nunca fui feia

nunca fui puta,
mas nunca fui santa

mas na vingança
não me fiz
lavadeira, cozinheira,
arrumadeira
de nenhum macho
chato

Não acho que foi premeditado
foi ditado lá do espaço

Porque eu não vivo
como os modestos
que se reconhecem

Apenas passo!

LINHA DE CHEGADA

.
Estou tão só
que o silêncio que me cerca
faz um barulho intenso
zumbindo
nos ouvidos

Amados, parceiros, amigos
todos sumiram
na esquina do tempo

deixando um oco
bem aqui no centro
do peito

Não sei de que jeito
isso se conserta
e tenho pressa de chegar
ao derradeiro

Porque todos que estavam lá
comigo
na linha de largada

chegaram primeiro

(Elza Fraga)

sábado, 25 de abril de 2009

PRA NUNCA

.
Quando amarrei você
com nó de marinheiro
na mediocridade
desta minha vida
pensei assim

como sou sabida!

Engano!

E me convenço mais disso
a cada ano
perdido
partido

É só olhar dentro
deste seu olho triste
pra saber
que o pra sempre juntos

não existe.

(Elza Fraga)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

BEM FEITO!

.

Depois que
eu fugi
como uma besta
é que percebi
a insensatez
do meu mau feito

Você sempre foi
o perfeito
pra mim.
O do meu jeito


Sobrou no fim
seu sorriso
na minha cabeça
e este arrependimento
ardido

Bem feito!
Eu merecia nem ter nascido
assim

com toda esta leseira
e com tanto tempo
vago
pra fazer asneira!

(Elza Fraga)

terça-feira, 7 de abril de 2009

TENTATIVA NUM BEIJO ASSOPRADO

.
Sopro,
como se fora Deus
a vida
pra dentro do teu
pulmão

em ares quentes

pra tentar
te fazer meu
devoto, crente,
penitente

pra sempre!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

PÁSCOA - TRISTE REPARAÇÃO







Senhor
eu nunca pesquisei
a Tua cor
a Tua etnia.
Não quis ler
Tua biografia.
Me ative só no principal,
Teu coração
doado em toda a dor,
pra nos fazer aprender
sobre o amor
Agora,
tanto tempo já passado,
estou aqui
nesta triste missão
de Te pedir perdão.
Perdão por cada um de nós
que Te ungiu com pedras,
Te feriu,
Te olhou nos olhos
e Te cuspiu.
Perdão, Jesus,
Meu Mestre e Salvador
por toda a dor que o homem
Te infligiu
Pois este erro pertence
a mim também
por extensão,
e que o Teu renascimento
a cada ano
nos traga o arrependimento
e a redenção

Amém, Amém, Amém!

(Elza Fraga)

CONTRA A CORRENTE

Ser carambola de quintal
uva na parreira
fruta madura
despencada da mangueira
moleca tola de fazer besteira...

E ver a vida a passar
na minha frente
tentar correr atrás
meio a força
meio a medo...

E me saber
impotente
brinquedo de quebrar
da vida má,

a me arrastar
- nadando -
contra a corrente.

(Elza Fraga)

domingo, 5 de abril de 2009

SAUDADES DO QUE NÃO VIVI

.
Meus olhos
rasos
de saudades
de coisas que nem vi
e nem vivi

de amores apenas
esboçados
em desenhos
toscos
na mente
onde amareleci
o antigamente.

Tudo irrealmente doído.

A alma sente
diuturnamente
o que poderia
ter sido
e não foi
virou jamais
por covardia
como um membro amputado
que ainda dói
demais.

Como a pontada aguda
do nós

que não fui capaz
de compor
e nos deixei
eternamente

a sós.

(Elza Fraga)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

SEMPRE É SOLITÁRIO O SOFRIMENTO

Por onde eu andava
enquanto tu sofrias
as dores
e o frio
da alma vazia
de esperança e sonhos?

Por onde eu andava
enquanto te agitavas
em sonhos pesadelos
de horrores e de medos?

Por onde eu andava
enquanto o pranto amargo
escorria tuas faces
desenhando vincos
refletindo um mundo
de monstros noturnos?

O meu sorriso mudo
tatuado na cara
contava
que eu andava
longe
mesmo a teu lado
mesmo ombro a ombro

Todo o ser é só
ilha isolada
quando o desespero
encontra a alma aberta
e entra porta a dentro
e faz a sua morada
no centro

dum coração deserto

(Elza Fraga)

sexta-feira, 6 de março de 2009

OS QUATRO CANTOS DA LUA

.
HOMENAGEM AS MULHERES
PELO DIA 08/03.
DIA DA MULHER É TODO DIA,
ESTE TAMBÉM!



Mulher é quase sempre lua
aquela beleza intocada,
enrustida, invertida,
clareando quando passa
mesmo vestida está nua.
mulher é quarto de lua
luzindo cores no ato
simples, corriqueiro,
de pentear o cabelo
como se fossem seus raios.

Mulher as vezes crescente
deixa os que a cercam dementes
dependentes, inseguros
as vezes mingua e sai fora
queixos caídos no chão
onde ela pisa pesado
com a ponta do seu sapato
em surpreso coração...

As vezes nova atiça
porque novidade espicaça
os sentidos... dá cobiça...
mas quando ela fica cheia,
aí é que fica bonita
pega o raio do cabelo
joga por trás do ouvido
desprende o laço de fita
e nesse gesto estudado
perfuma o ar inteiro
deixa o rastro do seu cheiro
desce em muitos luares
redonda clara, brilhante

Só faz exibir seus encantos,
nunca vai ser tua presa,
submissa, doce amante...
escapa, volta pra toca
lá do outro lado do mundo
e continua brilhando
nos quatros cantos da rua!

(Elza Fraga)

quarta-feira, 4 de março de 2009

PRA QUANDO CHEGAR MEU OUTONO

.
Quando enfim
me despir do cansaço
abrir os meus braços
fizer a comida
preparar a bebida
arrumar o meu colo

te chamo pra vida.

Quando enfim
eu limpar os meus olhos,
arrumar meu vestido
com os poemas paridos
e a tristeza for embora
pra lá do infinito

te mando notícias.

Quando enfim
a alma pequena
alçar céus imensos
se prender
nas estrelas
pra que eu nem mais veja
os rios correndo
descendo ladeiras
no mar se perdendo

te armo a mesa.

Quando enfim
os meus olhos secarem
e a matéria nem sangre
mais
os suores das dores,
e me nascerem flores
em cada orificio
jamais explorado

te dou meu ofício,
meu corpo, meu carma,
e meus estertores

te dou minha alma
-o chão onde piso,
em troca
de um riso
suave, sereno

te dou meus favores
amarelecendo
em cores
de um outono
de folhas pisadas
ao sabor da sorte

re-nascendo
da boca da morte

no vento.

Elza Fraga)

terça-feira, 3 de março de 2009

(I)MACULADA




.
Todos os orificios
tomados
maculados
conformados
com a sorte

sabendo que o gozo
é rápido

como a morte

(Elza Fraga)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

JUSTIFICATIVA

Nada do que escrevo
sou eu
ou me pertence

são fatos
vindos no vento

são fotos estranhas
colhidas
nas entranhas

do tempo

(Elza Fraga)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A BEIRA DO ABISMO

...
Minha mente
meu cão de guarda
vigia cada movimento
cada detalhe
que tento esconder
espreita
descobre
rejeita!

Ela me sabe capaz
de, incoerente,
tecer atos insanos


me sabe doente
de pensamentos

E me vigia
enquanto dissimulada
cismo
a um passo apenas

da beira do abismo

(Elza Fraga)
.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CHEIRO DE TEMPO

.

Tempo esquisito
que desembesta
e corre
feito mosquito
zunindo no ouvido

enquanto o sonho
morre
no passado

e a vida fica
com cheiro de mofado

(Elza Fraga)
.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

TROFÉU DO AMIGO





Esse é o Troféu do Amigo!

Esses blogs são extremamente charmosos.
Esses blogueiros têm o objetivo de se achar e serem amigos.
Eles não estão interessados em se auto promover.
Nossa esperança é que quando os laços desse troféu são cortados
ainda mais amizades sejam propagadas.
Entregue esse troféu para oito blogueiros(as) que devem escolher
oito outros blogueiros(as) e incluir esse texto junto com seu troféu!
Como o regulamento indica, só posso repassar o selo para oito blogueiros(as),
porém saliento que de forma simbólica a oferta é extensiva a todos aqueles
que têm interagido com o Tempo Inverso desde o seu nascimento.

Os nomes indicados são os seguintes:

1-Adela Casado (SensibilizArte)
2-Adrianna Coelho (Metamorfraseando)
3-Aroeira (Olivrão)
4-Beatriz Prestes (Reviver em versos)
5-Custódia Wolney (A Romancista)
6-kiara Guedes (Neste Instante)
7-Mariana (Suave Coisa)
8-Padmaya (Cosmunicando)


À Lou Vilela o meu agradecimento e a minha profunda admiração.

sábado, 31 de janeiro de 2009

COMO ACORDAR AS ESTRELAS

...
Um céu enluarado
a mansidão do vento
dobrando uma esquina
a pausa do tempo

parado, esperando,
a espreita da noite,
tentando contê-la.

Só minha dor
rasgada num grito
consegue
acordar
as estrelas.

(Elza Fraga)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

PREMATURA

Nasci numa quarta feira
de agosto,
numa madrugada chuventa
de desgosto
Minha mãe deve, no susto
da dor inesperada,
ter gritado
ah, fila da puta
isso é hora de querer ver vida?
E eu, já na portinha de saida,
me esbaldando de rir
da sacanagem...

Foi a minha primeira
grande arte!

(Elza Fraga)
...

domingo, 25 de janeiro de 2009

VERSOS SEM LEI

Meu verso nunca segue as leis
que regem a poesia.
A minha poesia é livre
e inversa a razão...
Não se pode fazer poesia
obedecendo regras...
O poema é folha
balançada ao vento,
que oscila por só um momento,
rápido,
e cai, estático,
pousado na minha mão...

(Elza Fraga)
...

sábado, 17 de janeiro de 2009

THE END




...
Salvo engano
só assisti
a se desenrolar
a vida
bem na minha frente.

Não vivi.
Sentei de platéia
e me esqueci
ali,
no fundo do cinema,
para todo o sempre.

Como um filme
onde omiti
as cenas deprimentes

E nem dei pinta
de artista principal
Figurante de quinta

só quem fez igual
entende

No final
nem nome nos créditos
apenas o the end

(Elza Fraga)

SEM SAIDA

...
Saber que a vida passa
e você fica
como sombra inimiga
a me vigiar passo por passo,
com a mesma calma
que um gato usa
a espreitar o rato

Me dá gastura
na boca da alma

(Elza Fraga)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

MAIS NADA

Pelos. Poros. Sal e cheiros
se roçando no meu corpo,
me preenchendo este oco
guardado bem lá no centro
do meu templo!

Suor. Cigarro. Cachaça.
Minha fé. Meu alimento
Cio de égua danada
que voa aromas no vento

Mais nada!

(Elza Fraga)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

TRICÔ



A moça na janela,
o jarro sem flor,
cortina rasgada,
vida destroçada,
sem graça, sem praça,
sem riso,
sem dor.

Sobrou:
Cotovelo poído.
Cabelo sem cor.
Novelo de linha.

Tricô

(Elza Fraga)

PODA

...
Doa a quem doer
corto fundo
sei dar talhos

ficam retalhos
de pele,
de pelos,
sangrentas sobras

de passado
marcado
nos vincos da face

que de profundos
cabem mundos

(Elza Fraga)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

DESCRÉDITO

Trouxe da infância
a fome de poesia,
a mania
de pouco pano,
o olho grande
na cara macia...

e este descrédito enorme
no ser humano

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

RECEITA PARA CAPTURAR FADAS

.
Deita na mata
uma rosa amarela
um jarro d'água
uma pedra bruta
um galho de cheiro
uma vela
um pau de canela
um monte de folhas
de macela...

E se acautela
por tras da cancela,
de sentinela,
que fada foge
porque toda ela

é donzela
(Elza Fraga)

domingo, 2 de novembro de 2008

PINGADO

.
GEMENTE

Sobrou
casa pra arrumar,
comida por fazer,
cão para cuidar,
flores no jardim
pra enfeitar a aridez
do
ai de mim



FALSOS VETORES

Não me dê flores,
beijos, promessas
falsos vetores
quando eu
...
só quero versos

RETIRADA

Recolheu a palavra,
encolheu a figura,
engoliu a vaidade
escondeu a verdade
colocou a viola
no saco

jamais imaginara
doesse tanto
um pé bem dado
no atras

E com vergonha do fracasso
e do não, claro e redondo,
Partiu pro nunca mais


REDENÇÃO

Toda mulher
faz poesia
com o corpo
ou com a palavra...

cada gesto afoito
cada marca no rosto
ou é poema
ou coito

Só a poesia
salva.


REMISSÃO

Cabeça baixa
ela rezava
e repetia
a Ave Maria.

Voltava pra casa
e se trancava
com o mulato
e o couro comia

E Deus perdoava
todos os dias!

(Elza Fraga)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

AUTENTICADA

.
Esta cara estampada
como foto
é a minha, única,
marca dos meus anos,
passados, bem vividos,
pura de artifícios...
Porque eu sou isso
que exibo
e mostro,
sem esconderijos secretos,
sem artimanhas escusas,
sem esconder coisas sujas,
sem inventar biografia, foto
e fatos

Autêntica como a assinatura...
Limpa como água de regato

(Elza Fraga)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

MOSTRUÁRIO

RELAXA

Para com isso moça
a vida é poça
que se pula
e num segundo

acaba o mundo!
---------------

CORTO?

Ao cortar um poema,
desceu-me
uma tristeza
de ausência
de descriação
garganta abaixo,
olhei os pulsos...
E...

Por que não?!
---------------

ECONÔMICA

Sou de palavras poucas
Falo com o olho,
economizo boca.
---------------

PROCISSÃO DO TEMPO

Que o relógio
bata as horas
nem me apavora
mais
é a função dele...

O que me encafifa
e dá frio
na barriga
é o tempo acompanhar
a procissão
---------------

APRESSAMENTO

Escondo no fio
da navalha
o frio
que a alma cala...
Medo
de desvendar
o segredo
da morte

Ou
Quiçá apressar
a nefanda
tenho fobia
a fila
que não anda

(Elza Fraga)
.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DIA DE MARESIA

.
Tudo é pouco,
todos surdos,
nada vale
o preço justo.

Só este dia,
com este sol e
este sal
grudado nas partes nuas
do seu corpo

traz conforto!

(Elza Fraga)

domingo, 21 de setembro de 2008

BORRALHO

(Histórias pra fazer ter medo)

Dentro de mim moram
uma moleca,uma senhora,
uma dama,uma sapeca
e uma doidivanas andadeira.
Convivem todas
de uma tal maneira
que meu interior é
quase sempre guerra...

Só vem a paz
quando você me desfaz
em borralheira!

(Elza Fraga)

ENIGMA

Um último beijo,
a garrafa vazia
ao pé da cama,
lençóis em desalinho,
sua roupa
espalhada pelo chão,
meu coração sentado
na beiradinha do colchão
fita,
pela vez derradeira,
seu jeito
no torpor do sono
e diz um adeus sem palavras,
só de pranto.

Até quanto de dor
suporta um ser humano?

(Elza Fraga)

GATO NO TELHADO

.
Tem gato no meu
telhado
Ouço o miado
arranhado
de fundo de garganta

Desce menino!
Faz arte
no meu quarto
é mais seguro

eu asseguro!

(Elza Fraga)

TERMINAL

A tristeza
hoje,
impertinente,
me fatiou a alma
para sempre


(Elza Fraga)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

sábado, 13 de setembro de 2008

terça-feira, 9 de setembro de 2008

DISSIMULADA




.
ARTE DE FATIMA QUEIROZ
POEMA DE ELZA FRAGA

MEU ERMITÉRIO

.
O meu céu
é um montão
de pontos cegos,
não nego.
Não há radar
que me previna a queda
ou a colisão.
Sou de leão,
mas tenho a impressão
que trago a lua
em aquário.
Sou forte e fêmea,
mansa e fluida,
desconexa e indiferente,
desconstruída li-te-ral-men-te...
ousada e retirante,
espiada, escondida!

Sou feita de vida
matéria não moldável
a qualquer gosto,
por isto tenho arestas exibidas ...
Como o desgosto que ostento,
linha a linha,
no meu rosto,
as minhas farpas também
caminham nuas...

Mas de todas as incertezas
que me cercam
a única certeza
que me resta
é que este mistério
em que fiz meu ermitério
me vem do fato
de ser apenas tua!

(Elza Fraga)

sábado, 16 de agosto de 2008

SURPRESA!...

Somos todos predadores, numa doida cadeia alimentar.
Nos alimentamos dos que vão enfraquecendo no caminho
e, assim, vamos matando, a cada passo, mais um pedacinho
da divindade que nos habita!



Numa estranha cadeia alimentar
você, meu predador,
se alimenta
das minhas entranhas
vorazmente!

Rumina cada pedacinho
e depois,
recostado no ninho,
candidamente,
palita os dentes...

O dia há de chegar
em que os papeis se invertam
e vou ser bem mais esperta
do que pensa ou deixa...
Vou começar meu festim pela cabeça
onde esconde seus tolos miolos,
como um tesouro .

E aí não haverá retrocedência.
Só anuência,
submissão, obediência...

Terei o predador domado enfim
dentro de mim,
que sempre fui a presa.

Devo gritar
-Eureka!
ou
-Surpresa?!...

(Elza Fraga

domingo, 10 de agosto de 2008

DIFERENÇAS

.
Poema adaptado para contação de histórias, nele as diferenças fazem o prato da balança oscilar, como um pêndulo maluco que nunca se detem na resposta e peso certo...



Ele morava na cidade.
Ela no campo.
Ele era formado em letras,
miúdas e graúdas.
Ela sonhava
e sua labuta era a roça.
Ele era usuário oficial
da cara feia.
Ela contava causos,
anedotas,
bebia pinga,
e ria de qualquer besteira.
Aos domingos ele ia ao culto,
de terno e gravata,
orar pro Deus só dele.
Ela? Vendia verduras da horta
na feira.
E se passou o tempo...
Um dia,
por estas peças que a vida prega
ou por ironia,
era setembro e era primavera,
seus caminhos se cruzaram...
Se conheceram.
Ele, por orgulho e vaidade,
disse nada,
mas lhe ofereceu uma olhada
de seca pimenteira
e uma flor roubada da roseira.
Ela por ingenuidade e tonteira
enquanto a flor despetalava
se entregava
E murchou no pé a sua vida inteira!
*******************
Até hoje me perguntam
o final desta história,
pois me sabem acompanhante
dos fatos...
E aí? Ele foi morar no campo?
Ela foi para a cidade?
E eu respondo a verdade: Não sei!
Só sei que no lugar em que ela
se entregara
hoje em dia tem uma roseira
onde só nasce flor despetalada...
Nunca,
nunquinha,
deu uma só rosa inteira!
*******************
(Elza Fraga)

sábado, 9 de agosto de 2008

PARTIDA


Meninas e borboletas
(Milton Dacosta)


A vida tem cheiro de bouganvilie florido. A morte, cheiro de sangue, deste mesmo sangue
que nos correu, vital, pelas veias por toda uma existência... Quando este amigo começa a nos passar seu cheiro doce é chegada a hora dos acertos, porque o tempo está expirando...
Quem diz que a morte é visita surpresa ainda não chegou ao seu limiar! A morte traz cheiro de sangue e ventos diferentes que só o padecente sabe e sente...


Quando eu me for
não rasgue a poesia
que saiu da minha mão
porque ela guarda
um muito da minha vida,
pedaços intensos
do meu coração...

E se lhe perguntarem,
afinal,
de que me fui,
responda só isso:

Meu coração não aguentou
tanta mistura
-Beleza com cinismo,
sorriso com maldade.
E sentiu saudade
de uma outra vida,
não vivida,
diferente, iluminada,
se rendeu por fim
indo buscar outras estradas,
--------------------------------------------
além de mim!

...

(Elza Fraga)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

PRECISÃO

Tem vezes que só uma fuga estratégica, para um lugar além do fim do mundo, nos salva a alma... Mas, se for uma solidão a dois fica mais fácil o resgate e, aí, a salvação é certa e para sempre!


O que me irrita
no povo
é esta mania
de viver em bando
como certos animais.
Detesto coletivo
ajuntamento
hipocrisia
vida social.
...
Ai quem me dera
pudesse ter,
nesta terra,
apenas uma tapera
como bem material.
Um moreno dentro dela
destes que gostem
de cheirar cangote
e que suporte
meu mau humor matinal
e esta mania
de ser solitária
de fugir pra dentro,
lá no meu fundo
onde ninguém me alcança...
...
O resto do mundo
gente, etiqueta,
critérios, manual,
me cansa!

(Elza Fraga)

sábado, 2 de agosto de 2008

MEIO MORTA

(É sempre um grande estranhamento o ir e vir dos amores...
Como a onda lambendo a areia da praia e depois recuando...
É sempre um jogo onde ninguém ganha, mas vai deixando
pedaços perdidos...)

-

Você chega
nem pede licença
me empurra sua presença
cara a fora
corpo a dentro
como se eu fosse
só uma qualquer
achada na esquina.
Me revira todos os avessos
e eu deixo
e ainda torço o queixo
pra ver melhor
a sua ousadia...
Depois sorrateiro
vai embora
e o silêncio que fica
machuca o meu grito
e repito
como uma maluca
seu nome
para o firmamento
que não liga
não entende, não dá bola.
só falta responder
um redondo
"não me amola!"
Deito e rolo
na cama vazia
choro torrentes
de lágrimas frias
e me pergunto mil vezes
o porque
de ainda abrir
a porra desta porta...
E é aí que eu
me rasgo, meio morta,
por você
(Elza Fraga)

terça-feira, 29 de julho de 2008

APENAS

(O passado sempre começa no momento vivido...
O momento vivido nunca é presente,
passa num piscar de olhos e fica, na memória,
denso, pesado!
Somos apenas passado e futuro...
O presente não existe!)
-
Sobrou apenas
- do passado -
esse meu riso
escancarado, farto!
Que o resto
- o mais belo -
o tempo foi levando,
foi lavando,
deixando desbotado
e impreciso.
A face esfacelada no espelho.
O cabelo que perdeu o colorido.
O saldo positivo da míopia agravada
pra não contabilizar,
muito de perto,
o prejuízo!
Sobrou para você
apenas o meu riso
escancarado, farto
-------------------------
passado a limpo!
(Elza Fraga)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A FILA ANDA

Que um relacionamento não seja prisão;
que não seja enfermaria nem muleta;
mas que seja vida, crescimento
(turbulências eventuais incluídas).
(Lya Luft)



É no mínimo estranha
esta sua maneira torta
de encarar os fatos...
Escondendo o sujo
dos sapatos
no tapete
deitando a larga pança
numa rede
assobiando baixo...

Enquanto isso se retira
de fininho
da história,
apaga toda ela
da memória
brinca de cachorro morto,
num pressuposto
que nada mais
tem a ver com isso!

Vamos cair de cabeça
na real,
virar a mesa,
mudar o rumo desta prosa,
recomeçar de onde demos pausa.
Resolver de uma vez por todas
nossas pendências e pendengas...


E se afinal
o final
for a ruptura
que aguente depois
de cara dura
sem cair no choro...
Tenha decoro!

Porque eu,
meu agora caro amigo
antes amado,
já coloquei seu nominho
ad eternum
no meu bloquinho
de casos passados!

(Elza Fraga)

terça-feira, 8 de julho de 2008

RUMO AO NADA

.
All my troubles seemed so far away. Now it looks as though they're here to stay. Oh, i believe in yesterday...
(YESTERDAY / JOHN LENNON)

(Todos os meus problemas pareciam tão distantes. Agora, porém, parece que eles estão aqui para ficar. Ah, eu acredito em ontem ...)


Respiro a escuridão!
Sorvo dela cada gole
trazido pelo vento.

Olho pra frente
e só vejo
o intransponível muro,
parede imensa
feita de escuro.

Não há mais tempo.
Não há mais sorte.
Não há mais nada
nem mesmo morte!

Perdi - à toa -
a chave do futuro!

Não há mais uma condução
um trem, um bonde, um avião
que me transporte
só esta corrente negra
que me arrasta
quando passa
pro nunca mais.

Estaco exangue!

E ainda assim
não há uma só gota
de ódio
no meu sangue.

(Elza Fraga)

quinta-feira, 3 de julho de 2008

SÓ A ALMA ESCREVE UM BOM POEMA

Para fazer poesia é preciso
uma boa dose de vida vivida
avidamente
sofregamente...
É preciso saber a medida- exata -
do sonho, do encanto, da magia.
É não ter vergonha da mania
ou do vício
de ser feliz a toda e qualquer hora.

É preciso aceitar que a inspiração
quase nunca existe,
fica de fora
neste exercício...

O que vem de dentro,
o que não tem jeito
e nem controle,
é a alma desnudada dos conceitos
e mistérios
Ela é a boca que fala
a mente que pensa
a caneta que escreve.

Para fazer poesia é preciso
apenas, ter alma,
uma calma e sonhadora alma
que fica a espera, a espreita,
e quando a poesia vem
ela, num ágil movimento,
mais veloz até que o pensamento,
a pega, a aceita,a molda, a conduz...
E dá a luz ao poema!
E este solto, livre, sem amarras
a recompensa
com a forma perfeita
fugindo pelos dedos a fora...
E pensa
por si só!
Se sente pronto,
vai embora,
nunca mais é seu!
O poema é ingrato
e não pertence,
nunca,
a quem o escreveu...

(Elza Fraga)