QUEM VEM COMIGO

terça-feira, 8 de maio de 2012

INVISÍVEIS



Somos todos
nesta vida
ampulhetas
escorrendo areia
na veia.

Sem opção
de virada
depois
de toda a areia
escorrida.

E ficamos passado
nas lembranças amigas
morando em fotos antigas
em molduras desbotadas.

Até que um dia sumimos
de vez
das ampulhetas
que ainda não escorreram
seus grãos

Viramos terra e chão
sem foto, sem nome,

ninguém mais
se incomoda
com nossa presença incorpórea,

ninguém lembra
nossa história,

como se, no fundo,
nunca
tivéssemos estado
neste pedaço de mundo.

Quem sabe
nunca estivemos
e somos apenas fruto
d'um sonho

num sono profundo?

[elza fraga]

GRADES INVISÍVEIS



Olho a rua,
canto,
um pássaro imita.
 
Procuro no galho
onde ele habita
sinais da comunicação
quase estabelecida.

Não o vejo,
cansou da brincadeira
e me entregou a solidão
de uma maneira
mais doída.

Abro as asas
sei que posso voar,
desisto,
quase já no ar,
volto parasita

É esta janela
da desdita

que me limita!

[elza fraga]

sábado, 5 de maio de 2012

TEMPESTADE



Destravei o seu portão
caminhei pelo quintal
atravessei o portal
entrei com bagagem 
e tudo

e você ali deitado
em convulsão

como um animal
indomado

como um feto
enrolado

no próprio cordão

nos seus olhos
olhei fundo

e neles só vi temporal.

Fiz o caminho inverso
cabeça baixa
coração quieto

voltei a rabiscar
meus versos

e desisti do seu mundo.

[elza fraga]

SILENCIADA



Sabiamente
logo eu tão sem sabedoria
[quanta ironia]
enfiei a viola no saco.

Perdi o direito de resposta
a hora certa de ferir bem fundo
o chão por baixo dos meus pés

quedei cabeça baixa pelo mundo.

Postura comprometida
e a zanga inevitável
com a vida,

mas uma coisa fiz
e bem direito

o silêncio é o xingamento
mais profundo.

[elza fraga]

ABORTO



Pensamento na cabeça?
tenho mais não
seu moço,
sirvo nem mais 
pra poesia.

Desde que a vida
me acuou
de tal maneira
que me enredou
na sua armadilha

preferi abortar a mente.

Somente assim
analgesia!

[elza fraga]

domingo, 8 de abril de 2012

OBSTINAÇÃO




Cortei fundo

sangrei na veia
escorri no dedo 
todo o estupor

nem senti
a dor
e o medo

da desgraça

bebi a vida
e quebrei a taça.

[elza fraga]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

AO FUGITIVO



Era meu sol
e era minha sombra
meu aconchego
e minha solidão
 
meu desespero
e meu contentamento
repulsa e atração
vertendo o tempo

Era a parceria
aquecendo noites frias
e encalorados dias
atravessando a alma

Era a calma
e o assombramento.

A segurança e o medo
o remédio e o veneno

E mesmo assim
ainda te queria
[e quero]
aqui dentro

deste inquieto ninho
que é meu peito
tão desfeito
de dignidade

e num sussurro de dor
baixinho 'inda te peço:

Entra de novo
fica a vontade!

[elza fraga]

sexta-feira, 30 de março de 2012

INCONSCIÊNCIA




A minha alma partida
foi buscar o seu lugar
cada pedaço p'rum lado.
Metade se acomodou
nos sonhos
e enlouqueceu

se achou um passarinho
nunca mais saiu do ninho.

A outra metade
perdida
não achou mais o caminho

essa metade sou eu
vagando esmolambada

sem consciência
da estrada
girando em volta do nada
procurando
pião torto

a metade que perdeu.

[elza fraga]

Fonte da imagem: http://alemdaterra.blog.terra.com.br/

.

segunda-feira, 26 de março de 2012

ACERTOS DE VIDA


Tantas vezes

renasci
num novo quarto

que nem sei 
ao certo
se sou eu
que estou aqui
sobrevivente
de tanto parto

Ou se morri
e ainda

não descobri.

[elza fraga]

EU SEI DE DEUS


[Você está girando a 1.675 km por hora, sabia?]


'Sei' de Deus

e isso
é mais que acreditar.
Não há nenhuma negação
em mim

e coloco de joelhos
minha alma em oração
agradecendo,
a maioria
com poesia.

Não existe hora certa para prece
e nem lugar.

É só lembrar que nos equilibramos
numa crosta de Terra
que ainda gira
todo o tempo
pra impossibilitar mais
nossos passos
e nem notamos
que não há nada para agarrar
senão o vento

pra reconhecer a maravilha
do milagre da vida !

Se alguém acha isso normal
e me vem com teorias mil
lamento informar
conheço todas,
nem precisa gastar
o seu latim comigo,
amigo

Eu continuo firme
por mais provas doídas que enfrente
Nada vai arrancar
a semente que Cristo plantou
fundo no meu coração
com o Seu Amor

E se Deus não tem internet,
nem tampouco Jesus

É porque não precisam disso
pois tem seguidores fiéis
que fazem este papel:

O de espalhar na rede
a nossa sede
de Luz!

[elza fraga]

DESNUDADA



Se eu escrevesse
tudo,
mas tudinho mesmo,
que vara minha cabeça
pelas madrugadas
quando só

com a insônia me comendo
a mente
num banquete insano
sem sentir nem


Não sobraria uma só pessoa
que
ao cruzar comigo
raiado o dia

meio constrangida

não atravessasse a rua

sabendo direitinho como sou
de alma nua.

[elza fraga]

SEM ESCOLHA




A rua por onde anda
minha imaginação
em desenhos elaboradamente
simétricos 
é calçada de violetas
olho fixo no chão
pra não feri-las
e abro mão

de apreciar as borboletas

[elza fraga]

MEU ACALANTO É SEU



[Fica bem, somos passageiros descendo
em estações e horários diferentes]

Se eu tivesse a palavra certa
Se eu tivesse a varinha mágica 
Se eu tivesse o remédio justo
Se eu tivesse ombros andantes
consolo constante
que voasse
longas distâncias
pra deitar sua cabeça
em acalanto...

Mas só tenho a mente viajante
o meu amor incondicional
fraterno, puro,
o coração solidário ao seu
que lhe diz
Segura minha mão,
mesmo virtual
vem pro sol de novo
sinta a vida em ação
se afasta do escuro

As dores,
estas, meu amigo,
um dia

passarão!

[elza fraga]

QUEDA LIVRE



Tal e qual
o colibri
no seu bailado
inusitado

pairo no ar
por um leve segundo

sem asas pra bater
mergulho

sem cordas
pra me recolher

me conformo
no fundo

do mundo.

[elza fraga]

DESMASCARADA



Caiu a última máscara da face
e pude me ver, friamente, a nu,
sem nenhum embace

Foi como se me descamasse
casca por casca
e sobrasse
o miolo informe

alguma coisa
dentro
enfim
grita
-Conforme

o que está fora
grita
-Disforme

Enquanto os dois lados
se riem

de mim.

[elza fraga]

Foto que ilustra o poema: Leigh Bowery(1961-1994)
Presença marcante dos anos 80, designer de moda, promovia a noite londrina, foi proprietário do famoso clube noturno Taboo. Artista performático e cantor.

E NEM ERA PRIMAVERA



Nas bordas
da minha alma
debruçou-se
em algazarra
 
o canto
do bem-te-vi

e eu senti
que dentro dela
já havia chegado

da primavera
o vento

fora do tempo.

[elza fraga]

Foto que ilustra: Primavera de Taro Semba, 1960

ABDUZIDA



Como saber
quem é você
do que
é capaz
 do que zomba
esta cova
do seu queixo?


Mesmo assim
corri atrás

imantada

e nunca mais
me achei
 na estrada

Acredito que virei semente
plantada
dentro
do seu peito

desse seu desconhecido
jeito

mas nada ficou
mais perfeito

como morada.

[elza fraga]

POSSESSÃO




Mesmo arrastando
os meus rastros
pesando na corcunda
o tempo vil
que corre
pra desesperançar
meus passos
querendo me desentocar
deste covil

pois só assim
sem abrigo,
sem nada
a esconder a cara
sou presa fácil
ao fim.

Eu não desisto
e jogo o laço
e enlaço a vida
e a prendo a mim

[elza fraga]

PLANETA CEGO





Quem se importa com a baleia
que encalhou na praia
e ficou ali em agonia?

...
Quem se importa com o cão
arrastado por gente vazia
até a morte?

Quem se importa com a sorte
dos sem pão
dos sem teto
da desdita?

Quem se importa
com o choro da Terra
impotente
dolorida
encolhida

que nada pode
contra o coração
duro
do homem?

Quem se importa
se há fome
dor e desespero
poluição e medo?

Quem se importa
em fechar feridas
doar amor

salvar a vida

abrindo a própria
porta
escancarando a alma
criando calma?

Quem se importa?

[elza fraga]

domingo, 25 de março de 2012

POR QUE?




Melancolia
correndo na veia
enquanto o sangue
escorre
denso
em poços imensos

A lua apressada
crescendo
pra ficar cheia
e esta dor danada
nascida do atrito
do tempo no vento.

E a pergunta
parida num grito
do medo
de nunca mais vê-las:

Por que me roubaram as estrelas?

[elza fraga]

DESGARRADA




Decidi
só vou ouvir
a voz
do próprio coração
e seguirei a risca
a intuição.

Ficarei surda
aos que mentem
bajulam
trapaceiam
se acham com a razão

puxam os nossos tapetes
e se riem
ao nos ver nariz no chão.

Ficarei muda
aos que se estendem
em maledicências
falando
na ausência
o que calam na presença.

Não mais seguidora do rebanho!

Sou a perdida que ficou atrás
do bando
cada vez mais longe

E nem me importo
se acham anormal
estranho

Sai da fila
dos seres humanos.

[elza fraga]
...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

MIMO DE AMIGO



Mimo de amigo

 Este selo veio de presente do blog TÁVOLA DE ESTRELAS do amigo JouElam E. Dallavecchia. Agradeço e retribuo com um enorme abraço de Luz.
http://pt-br.facebook.com/jorgeedani

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

DERROCADA




Sabe aquela calçada
onde sentada eu ficava
olhar perdido na luz
dum infinito de estrelas
que cavalgavam a estrada
pendurada no espaço?

Ainda estou aqui sentada
mas com os olhos na calçada,
pois descobri
que só aqui, 
bem baixo,

é que te acho.

(elza fraga)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O DIA EM QUE A POESIA PARTIU




Tem vezes que a poesia foge
vai morar em outra freguesia

e o poeta fica inanimado
como quem morre,
como a quem falta
o pão de cada dia.

Um dia a poesia parte
some sem dizer motivo
e leva junto
o sorriso da cara
leva os sonhos
doces amigos das horas vazias
quando as madrugadas esfriadas
colocavam a pena
nas mãos enregeladas
do poeta.

E aí é como se fora
festa acabada,
velório, luto,
saudades extremadas
morte do vate...

Quando a inspiração se vai
a poesia senta na calçada
queda calada
e o poeta mudo, 
fica cego,

tateia e não acha
---------------------------------------- 
se morre
se mata!


(Elza Fraga)

NÃO TEM GENTE!





(Da série verdades que só eu sei)


Quem morou
dentro
deste peito
deu um jeito
nas tralhas
e partiu

só ficou a casca
olhando pro vazio
perscrutando 
o fim

Não deixou link
pra correspondência
desculpe a ausência

de mim.

(Elza Fraga)

domingo, 13 de novembro de 2011

INVERTENDO A VIDA




Andar 

até onde 
a estrada da memória 
não alcança

Correr mulher
morrer criança

(Elza Fraga)

EQUÍVOCO




.
Só olha

não entende nada

e diz:
"Coitada
não chora"

Esta lágrima
que escorregou
é só o por do sol
saindo
pela mesma janela
que entrou

e de tão bonito
quase me cegou

(Elza Fraga)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

UTOPIA



Na noite nua
só vazio

e um grito

que partiu
o infinito

a lua caiu!

(Elza Fraga)


A FUGITIVA



A FUGITIVA

Vim de mala
seu moço

recolher a fala
catar meus cacos

pedaços esparsos

a rede
fica de herança
pelo trabalho

que dei

...descansa

(Elza Fraga)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

SOLITÁRIOS



Jamais veremos juntos um ocaso.
O esplendor do mar
encapelado ou calmo.
Uma estrela azul
riscando o céu.

Jamais veremos juntos
o fim da madrugada.
A alvorada abraçando a vida.
A chuva batendo na calçada.
A minha mão suada na tua mão querida.
Minha cabeça no teu coração.

Jamais veremos juntos
duendes e fadas.
Moleques sujos com os pés no chão.
O mendigo na esquina da minha rua
a esmolar afeto mais que pão.

Jamais terei minha boca na tua
nessa hora em que os solitários
adormecem tristonhos,
e só os casais ficam inventando sonhos.

Jamais conseguiremos juntos
a felicidade
de, peito no peito, presa a liberdade,
partilharmos o leito onde as loucuras
tomam forma de verdades.

Jamais veremos juntos
flores na primavera.
Eu as verei daqui, solitário cantinho,
solidário abrigo das noites vazias.

E tu - eu sei - as pisará sem ver,
neste estranho caminho de musgo,
de hera,
que imaginas de aço, de ferro,
de pedra.
Que percorres de cor
sem precisar de guia,
como se todos os dias fossem
o mesmo dia!

Seguirás teu asfalto.
Pisarás tuas pedras.
Sem conseguir enxergar
a beleza do ocaso.
Sem nunca notar
que já é primavera!
 
(Elza Fraga)
Publicado em: 28/05/2007 18:53:24

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

AS VOLTAS QUE O MUNDO ME DEU

 
 
Era rio
desci cachoeira
hoje sou regato
de final de linha

Que sina
a minha
ficar parada

abestada

com o olhar
perdido

no nada.

Elza Fraga

EVOLUÇÃO AS AVESSAS

 
 
Quando me for
quero voltar em flor
que isso de ser gente
dá um trabalho danado

deixa demente

Elza Fraga

domingo, 18 de setembro de 2011

ATUALIDADE

 
Lembra quando sorria?
Havia um certo trejeito
uma covinha na face

agora a face trincada
em dentes que não se mostram
me viram as costas
no espelho
 
Deve ser medo
da resposta do tempo
da boca escancarada
da máscara arrancada

do inteiro, do intenso
do enredo,
do cerco
do esterco da alma
morta
da projeção do enterro

tentando arrombar minha porta.

Elza fraga

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PESADELO




Com a boca
da medonha
escancarada
sórdidamente forte

como um avesso
de sorte

a lingua deslizante
rastejante
 
como traiçoeira cobra
salivando
minhas sobras  
 
entre entradas
e entranhas

fingi de morta
fiz que era santa
voltei criança

Burlei a morte.

Elza Fraga

sexta-feira, 1 de abril de 2011

E EU NEM CONHEÇO NOVA IORQUE

..
Quem vai  debruçar
em minhas mãos,
enlaçar um terço,
rezar uma oração
com a simplicidade
dos que oram
sem pranto,

só com o coração?

Quem,
enquanto espero
a saida
finalmente,
vai olhar meus olhos
como crente
com amor, respeito
ou devoção?

Quem,
diferente dos demais mortais,
vai lembrar da morada espiritual
a casinha
de janela amarela
com jardim
que sempre sonhei pra mim
depois da ida?

Quem vai chorar a minha morte
se eu nem conheço Nova Iorque?

Elza Fraga

..

VAGAROSAMENTE

...
Prisão involuntária
vidro da janela
há vida lá fora
...
sol brilhando agora

dentro do meu mundo
só cheiro de morte
fedido
...nauseabundo

até chegar ao fundo
e aí se finda
a última engrenagem
...funcionando ainda

(Elza Fraga)

domingo, 13 de março de 2011

DIA DA CAÇA




Ah, vida
porque castigas
com tremores,
...
fendas escorrem nos rios

trama
ondas gigantes
mata teus próprios filhos

desespera quem te ama
nos deixa de peito vazio
e nos preenche de medo

e frio!

(Elza Fraga)

sábado, 5 de março de 2011

O MURMURAR DO SILÊNCIO

...

Sem palavras,
todas fugiram.
Calar é ouvir o silêncio

esse eu recomendo
diariamente
noturnamente.

Então não se espantem comigo
se emudeci o canto,
e abri as comportas do pranto

A alma seca a luz
como se pendurada
 em cruz

perdida

num varal
qualquer da vida

(Elza Fraga)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

NO FUNDO D'UM OLHO SECO



 

Enfim o livro parido, obrigada a todos que ajudaram com apoio, amor, incentivo... 
Grata por toda a energia  positiva enviada para que eu pudesse ter forças e superar os obstáculos.
Bitokitas de toda a Luz!

Elza Fraga

segunda-feira, 24 de maio de 2010

MOTIM

Meu universo é inverso
vive de ponta cabeça
por mais que eu endireite
ele a noite
aproveita
a hora em que adormeço
pra fazer malcriação

e se vira do avesso
e põe o pé na cabeça
e a cabeça no chão

universo que não deixa
nem os meus versos direitos
quebra a rima
parte ao meio

Um dia
imito o seus feitos
com o jeito que Deus me fez
amarro ele nas pontas

e acerto as nossas contas

(Elza Fraga)

ALQUIMIA DO FRACASSO

E lá vou eu
de coração
na mão

tentando a transformação

fazer da matéria
uma estrela

de qualquer grandeza

ouso voar,
meio zonza,

me embolo toda
nos raios azuis,
distorço
o feixe de luz

e fico,
extática,

em oferenda.

Mas é difícil
o sangue estancar
quando

ainda madruga

e a gente
se espraia no ar,
meio fuga,

meio prenda.


(Elza Fraga)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

PROCURA-SE MÃE QUE SUMIU


Foto devidamente roubada de orkut da irmã, rsrs.



Eu nunca soube
ao certo
quantos éramos.

Só lembro de muito barulho,
da algazarra,
das risadas permeadas

de coisas bobas
[hoje morando
nas  lembranças]

antes engraçadas
por estarmos todos
crianças.

E  no meio
desta gritaria

-gigantesca
a mãe
que tudo sabia

num afã
de dar conta
de cada cria

Ela acreditava
que podia,
talvez  por isso
desse tão certo

com ela.

Mas o tempo,
inimigo implacável,
tirou a dona da roda
do nosso meio

e qual pintos assustados
espalhados
por todo o canto
nos deixou atarantados
e sem rumo

Até hoje sem prumo
procuro
aquela bruxa fada

que remexia
o tacho
e abaixava o nosso facho
com seu feitiço certeiro

e não acho.

(Elza Fraga)
.

terça-feira, 4 de maio de 2010

INQUIETUDE


Desenho de Jorge Luis Borges sobre o tango

Botei o vestido
de domingo
desbotado
os sapatos
tinindo de apertado

com salto sete
para passo lento

cabelo solto
ao vento
batom vermelho
morango

e fui procurar parceiro
pra dançar um tango

que isso é o tudo
que aguento

por enquanto

(Elza Fraga)

sábado, 1 de maio de 2010

DUO

TRAMPO

Bondade sua
ser tão generoso,
nem precisava tanto,

só o sorriso no seu rosto
já paga o trampo!


PEÃO DE OBRA

Sentou no saco de cimento,
abriu a marmita
cheirou
e decidiu,

hoje ia mandar
a patroa

pra dona
que a pariu

(Elza Fraga)

sábado, 24 de abril de 2010

RECEITA PRA ENGANAR O TEMPO

O tempo zombeteiro
pega a gente
leva na torrente.

Brinca de morta
que ele sai
da sua porta!

(Elza Fraga)

terça-feira, 20 de abril de 2010

PROFISSIONALMENTE

Não contratem
parentes
pra chorar
a minha morte

molhando meu coração
e meu caixão
sem nenhuma emoção

apenas obrigação
indecente

chamem as carpideiras

elas entendem bem melhor
desta função


(Elza Fraga)



terça-feira, 6 de abril de 2010

SÓ O QUE BASTA



Eu

mais um cachorro
triste
gemente

mais um apartamento
envolvente
[prisão quente]
me aranhando
as suas teias

mais o sangue
dolorindo
as veias
espremidas
tentando sorver
vida

mais um livro
trambolho
letras embaralhadas
no muco do olho
páginas ao léu

mais uma janela
que
aberta
dá direito
ao céu

Essa é a minha
paz
a minha
ilha

estrelas completam
a família

(Elza Fraga)

terça-feira, 9 de março de 2010

ENSAIO DE DESPEDIDA

(É apenas um ensaio, quem sabe daqui a cem anos escreva um outro melhor, rs?
Serve apenas para explicar minha ausência e para matar, um pouquinho que seja,
esta vontade enorme de poder estar inteira, novamente, na net)

.
Aos que agradei
e que- de algum jeito-
me amaram,
aos que não me suportaram,
aos afetos, aos amados,
aos desafetos confessos,
aos partidos, aos ficantes,
aos que abandonaram o barco
por fadiga,
no instante exato
do apito de partida,
aos que deixaram  melhores
[ou piores]
os momentos voantes
da minha vida.
Aos passantes, aos solidários,
aos falsos amigos, aos de verdade,
aos reais, aos virtuais,
aos que se foram
sem sequer terem tentado
atingir meu coração,
aos que conseguiram,
aos que me leram a alma,
aos que me tiraram o prumo
e a calma,
aos que espremeram meus olhos
até cair o pranto,
aos que secaram a face dolorida...
Aos que persistiram
e acompanharam
até o fim
Deixo a todos, como herança,
uma lasca enorme

de mim.

(Elza Fraga)