QUEM VEM COMIGO

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

NA TERRA DO AQUI DENTRO



Aqui dentro do meu peito o terreno é estranhamente sombrio e triste, todo tomado de ervas daninhas.
Cresce só o mato, sem planejamento, sem semeadura, sem plantio de galhos, sem mão diligente e dócil a acarinhar o chão tão fértil.
Os torrões de terra aparecem nas raízes, encharcados.
Muito choro rega a indomável hera.
Muito choro rega cada pedacinho de chão.
Muito choro chorado pra dentro no escuro existente, em leitos inimigos feito de folhas amarelas, que não trazem mais descanso de sono, não trazem mais acalanto, não trazem mais conforto, só entendem mesmo de pranto e de estender nas costas o duro da pedra.

Não há cuidado do proprietário em aparar a grama, arrancar as ervas más, fazer semeadura de flor. Deixa que cresçam espinhentas e malévolas autônomas quimeras, formando colunas onde não entra a claridade de um sol matinal, ou de uma estrela piscante, ou de um clarão de luar em frias madrugadas nascentes.
O único interesse é desbravar um minúsculo pedaço, armar a rede no espaço menos denso, se balançar um tanto, descansar até bastar, se fartar da seiva que a terra ainda oferece.
Cada vez mais rara seiva, cada vez mais agreste seiva, cada vez mais murchante seiva. Dar pausa pra sonhar um pouco, enredar as pernas, nunca a alma, se revigorar para a busca do que nem sabe onde está, ou se existe em um outro canto.
E então mais triste do que triste era partir pra outro terreno, outra terra.
Partir que a vida é uma estrada, que leva muitas vezes a lugar nenhum.
Sem entender que nesse território aqui é que mora o viço e o vício, a consolação e a ternura, a amargura doce e a urdidura, a paz e o suplício.
Sem entender que é aqui nesse regaço cheio de mato e sombra que o sol se fará nascer num dia de festa, e as cores dominarão os muros, e as flores poderão sim invadir tudo, e tudo voltará a ser então como era.
Sem entender que é só ele chegar e entrar, dominar, esquentar, sorrir, plantar.
Estar presente em toda a trajetória.
Inventar a mais doida e linda história que alguém sequer pensou em escrever.
Esquecer as vielas paralelas, a chamada dos pássaros lá fora, as flores que se abrem convidando em outras terras, a vida que estua em carnes belas, a juventude lhe pedindo mais e mais ausência do meu regaço que é o seu recanto, do seu lugar que é o meu profundo peito apertado, e quente, e aconchegante.
Esquecer os outros colos, outras pernas, outras matas, outras regas.
E se deixar ficar na rede agora eterna.
E sorrir, e cuidar, e fazer do indomado mato um jardim, e semear seus braços no ‘aqui dentro’, e enfim plantar o seu único jardim
em mim!

[elza fraga]

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

EN-SAIO SOBRE O AMOR

O amor atropela, fura sinal, avança e segue pela contramão da temperança e da lucidez.
O amor não pede licença, não bate na madeira da porta, não toca campainha, não avisa a chegada antes de entrar.
O amor é sorrateiro, sinuoso, perigoso, ardiloso, cheio da empáfia que o nome lhe permite.
O amor não segue setas, não respeita domínios, não retrocede na esquina, não desanima no fracasso.
O amor insiste, vence, domina, se impõe, repete a lenga lenga que sabe funcionar no coração marcado para abate.
O amor não é fraco não, não cai pelo caminho, não se deixa abater, desanimar, descalçar;
Amor de verdade volta todos os dia a mesma hora, ou em horas incertas quando quer causar aflição. Mas volta, nem que seja pra lembrar que ele está vivinho.
O amor não é pra amadores, não é para espíritos frágeis, não é para covardes.
O amor é para matreiros, caçadores, guerreiros armados.
Não é pra quem se defende escondido pelas cobertas do medo
É pra quem tem ousadia.
Amor não é brinquedo, mas quebra, acaba a corda, se entorta e vai embora.
Escorrega pelos dedos como areia, não deixa nem presença, mas deixa gosto.
A alma sabe disso e se preserva, e se retira, e sai da arena, e perde o melhor da festa.
Porque o amor é grande demais pra caber numa vida só, ele atravessa, e segue.
O amor é doença, então atenta e fuja da vacina, melhor ter amor umas dez vezes na vida e contagiar aos incautos, que ter o remédio... Porque o amor pode ser tudo, pode ser nada, pode ser o que caiba no peito, mas nunca deve ser usado em doses altas como remédio, em dúvida leia a bula!

[elza fraga]
...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A NOSSA ESPERA


Sabia que viria
pelas cortinas da janela
sempre abertas
vi seu sorriso
chegando na esquina

sabia que viria
não me deixei
tomar o desespero
nem o medo
nas noites vazias

só esperei
e tão longa foi a espera
que os anos passaram
como um vento na cancela
sobre tanto tempo insone

e na minha prece
murmurei seu nome
e na minha fome
foi ele meu pão
o santo da minha devoção

mas em verdade
a sua imagem
congelada na retina
me poupava da vida
me salvava da sina

me preservava menina
presa da esperança

mansa
sabia que um dia enfim
você viria de novo para mim
e tudo voltaria a ser o que era
em outras eras

e agora que dobra
a curva do caminho
alquebrado
talvez por tantos ninhos
tantos pousos que sentiu

seu coração

eu apenas estendo as mãos
e abro meus braços
prendo você
no mais doído abraço
e lhe mostro as setas

acerto seu peito
no meu peito
sua cabeça repousada
em minha testa
e cerro as cortinas

agora que é tudo festa
(ai quem me dera)
que nunca mais se abra
a porta
a cancela

a janela

o portão de ferro
a tramela

que só a eternidade
se abra

a nossa espera...

[elza fraga]

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

POESIA NEM SEMPRE É BIOGRAFIA

Meus poemas não sou eu, não me retratam, não me denunciam, não biografam... São poemas apenas que contam histórias recolhidas em filas, em ruas, praças, parques, na ventania das manhãs e tardes.
Minha poesia não me define, não conta o meu tempo, meus dias, não fala nada da alma, que essa - a minha, é calma como uma menina que ainda não aprendeu as armadilhas da vida, apesar da cronologia covarde não deter os aniversários.
Não esperem nada meu dentro dos poemas que escrevo, não me ato em fitas e me jogo ao relento, ao julgamento dos que seguem a mesma trilha, apenas passo registrando o que os pássaros me contam, os que as flores me segredam, o que as pessoas não mais me sonegam, e de maravilha em maravilha, vou correndo todas as coxias, arregalando o meu olho deslumbrado em perceber como esse mundo é vasto de histórias.
Não sou eu nos meus poemas, apenas o que a memória registra, grava na fita das emoções e traz tentando ajeitar, romancear, fazer bonitas as passagens antes feias. 
Leiam como ficção, e se lhes falar ao coração, não se sintam constrangidos em reconhecer situações.
A minha poesia cabe em qualquer um que respira, tenha a idade que tiver. Nem a crença que o habita, o status, a ousadia, o temperamento, pode afastar aquele que se habilita à poesia, do poema que lhe fez vestimenta! 
Fique a vontade, se vista, se queime, se ache...
Que eu, daqui, também me ardo, e alicerço, em versos. 
#SóAPoesiaSalva

[elza fraga, matutando... só matutando...]

domingo, 13 de novembro de 2016

E MAIS NADA

(e se tentas colocar/ contenção com tua mão/ pra me parar/ saiba com toda a certeza/ que perdi o freio/ feio/ e venho descendo rio/ numa louca correnteza/ pra desaguar no teu mar...)

Me traga um pouco
da maresia lá do litoral
um pouco de sal
pra deixar meu corpo
desse jeito
que te deixa louco

me traga a onda mais serena
dessas que lambem as pernas
apenas
um pouco da espuma
e da areia
que te incendeia
a carne

me traga o vermelho da tarde
caindo dentro do horizonte
no mar mais longe
que teu olho alcançar

me traga o moreno
do teu dorso
e deposita bem aqui
no meu regaço

que eu me me traço
toda em colorido
pinto palavras de amor
ao teu ouvido
planto meu ventre
entre tuas coxas

depois...
depois cada um
é cada
acordando satisfeito
do sonho sonhado
bem perfeito

na própria cama,
na própria casa,

mais nada...

DESCENDO A CORTINA



Emudeci,
calei o que sabia
de ti,
não contei detalhes,
omiti, cortei
o the end infeliz,
quem quis saber
procurou me entender
pelos retalhos,
já quem preferiu se doer
e pensar que fui eu
a metade que calo,
o ato falho,
só falo:
tenta não meter bedelho
e sai a procurar
um outro enredo
numa outra vida
menos gris,
que a minha
já tem lances
e romances
demais,
além do medo,
pra virar filme
de segunda
na imaginação
fecunda
de quem quis
apenas
ser minha mão
dirigindo
a minha pena,
o meu coração,
eu nem caibo
numa história
tão pequena...
encerra a cena.
[elza fraga]

IN-TOXICADA


Só me restou seguir
não tinha seta de “retroceda por favor duas esquinas, dona menina,” e fui, e vou, e sigo, e consigo ser cada vez mais pior que fui, que sou, que vou conseguir ser talvez quem sabe ainda um dia na projeção de como poderia, num insucesso de mim, estar no fim, desorientada me tropeço pelos medos, as pedras do insólito caminho me cortam os dedos, uma a uma armadas, armadilhadas desde cedo, colocadas como espinhos, sei muito bem que só o seu carinho cura e conserta cada ralada melhor que o vinho, mas sei também que não se vende mais em nenhuma drogaria aberta nessa droga de vida hoje deserta, então nem me cuido injeto seringa cheia de ódio na veia, paliativo que finge adormecer a dor qual curativo, única droga que ainda me aquieta e deixa o sangue vivo, entre todas as drogas inconfessas, que a nossa história sem começo, sem fim, sem pé e sem cabeça, já é a minha droga predileta entre as agruras, que enfim, no fundo, tudo é mesmo droga que se mistura... droga de mundo droga de mim! [elza fraga]

sábado, 12 de novembro de 2016

ANTES



Meu quintal encheu da  hera
que invadiu muro e tela,
cercou minha alma de mato
onde antes era terra,
semente, flor, e jardim,

nada mais brotou em mim.

Meu quintal não tem mais pasto,
nem mais cor, nem alecrim,
fechou de cerca e floresta
a fresta por onde eu via
o raiar de novos dias

onde
em festa chovia
poesia.

Não enxergo mais o céu,
nem o sol, nem o infinito,
tudo o que era bonito
tornou-se feio e vazio,
não há mais nem horizonte,

nem ponte pra atravessar
o rio do desespero,
nem grito sai da garganta
em prece, uivo ou apelo,

e tudo o que eu preciso
é do sol morno de volta
pra adormecer meu medo,

e espero acomodada
na rede da tua lembrança
sem ter nem dor nem revolta
mas prenhe de esperança
dum dia de recomeço
em que tua presença se plante

se abrindo em primavera,

que o mundo gire ao avesso
e que tudo volte a ser
daquele jeito que era
lá num passado distante

antes!

[elza fraga]

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

VÍCIO





E pela fresta
da minha alma
aberta
encontrei a festa
e a calma
da sua presença
a colori
todinha de arco iris
e a prendi
na iris
pronto
eis o refém
o resgate
a permanência
acabaram-se os dias
de tormenta
as tardes cinzentas
a vida vazia
agora só a euforia
movimenta
a vida
e arrepia
os pelos
na ousadia
e no desmazelo
da cama vadia
fiz-me sua
e acabei
com minha vontade
tornei-me
pedaço do seu todo
carne da sua carne
matei a própria identidade
em busca da sua resposta
eis-me feliz
renegando a alforria
eis-me feliz
mas totalmente
morta
você vicia!
[elza fraga]


NÃO JOGO PARA PLATÉIA



A felicidade hoje
me preencheu
de tal maneira
que nem sei por onde
começo a comê-la,
se pelas entranhas
já meio roídas
ou pelas beiras.
Só sei que
esse sorriso bobo
se tatuou no meio
da minha cara,
meio tosco,
meio disfarçado,
meio maroto,
eu sei porque
e você também sabe,
e se nós sabemos
o que vai importar
à claque
em que bolso
a alegria
nos cabe?

[elza fraga]


domingo, 6 de novembro de 2016

REBOTALHO


A dor escreve poesia
melhor que a alegria?
Ou a passividade é que nos faz
em calmaria de dias covardes
que nem descem e nem saem
de cima
fazer a rima do tempo?
O amor escreve poesia
mais contundente
dessas que se balançam ao vento?
Ou é o coração demente de paixão
que só enxerga o que está amado
e se perde em tolos poemas
desarmados?
O poema é o inverso
ou o reflexo?
É a inquietude
ou o tormento?
É a tormenta
ou a consequência
da tempestade?
É o que não se pode dizer
no cara a cara
ou é o que arde?
É a escara da alma
que cansada se fere
ou é a bandagem?
É o que se corta em retalhos
ou o poema é só o rebotalho
o que sobrou de bagagem?
O joio separado
ou o preparado inferno?
O que externo
e não encalho
na areia do caos?
É o que veio de mais
e regurgito
e vomito
e não calo?
O poema é minha dor
com rascunho rasgado?
É o passado
a limpo
sem anestesia?
Ou é a doida mania
de jogar no ar
o que me entope e que me impede
de respirar?
[elza fraga]


sábado, 5 de novembro de 2016

MANIA




Soube que você
tinha feito morada
definitiva
assim que adentrou a sala
se instalou no quarto
e me roubou a alma

não mais iria se mudar de casa
pensar outra estalagem

aqui não pagaria hospedagem
estava na cortesia
do meu coração

jamais imaginei
outra situação
que não fosse
tendo você de parceria

mania minha de inventar finais felizes

mania...

[elza fraga]

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

PEGA O SEU POEMA



'Quero um poema
só meu'
- fez o pedido
com um olhar
meio travesso -
'eu mereço'
sussurrou-me então
ao ouvido

peguei os cabelos
da sua nuca
e sem dó
enchi a mão

encostei só meu coração
ao seu
na mais completa
comunhão

e duvido
que alguém tenha feito
poema melhor que esse
- e dessa maneira -

de carne, músculos e grito

escrevi não um poema

mas uma história
inteira!

[elza fraga]



domingo, 30 de outubro de 2016

TENTA...




Sabe aquela ideia
de me esquecer?

Vai falhar.

Sabe aquela vontade
de me tirar da mente?

Não vai dar.

Sabe o procurar em outras
meu sabor?

Não foi, não deu, não rolou.

Sinto tanto por você
meu caro e querido
ex amor
mas vou morar na sua cabeça
até o seu suspiro derradeiro

pega a cadeira e sai pra varanda
senta
e
tenta de novo ensaiar adeus,
tenta...

[elza fraga]


sábado, 29 de outubro de 2016

ESTRAGO


Seu pensamento
não sai
do meu quarto
do meu leito
por mais que instale barreiras
na mente
por mais que tente acalmar meu peito
por mais que feche portas e janelas
e coloque cadeados na tramela
por mais que prenda a mente
em silêncio
pra que ele - malfazejo -
não me localize
e se una a corrente
do meu desejo

mas guloso passeia minhas coxas
sonha com meus cabelos
se deleita no meu beijo
se derrama nos meus olhos
me suga os pelos
se enrosca nos meus braços
e passeia a língua em cada traço
do meu rosto
do meu pescoço
temente desce
e me explora cada curva
em oração e prece

seu pensamento
é quase um mortal pecado
inconformado

se não fujo dele
muito me acabo
e lhe pergunto

até quando iremos separados
caminhando juntos
lado a lado?

[elza fraga]


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O DESPERTAR



E eu que não cantava e não sorria
não bebia a vida
em taças frágeis
com medo de despedaçar
meu mundo
e quebrar meu coração
onde as feridas
cortavam fundo

aí chega você
e seu jeito vagabundo
e muda meu rumo
e me aponta o norte
e diz que vai mudar a minha sorte
e que vou conseguir ficar feliz
outra vez pra sempre

e eu acredito
e rio e danço pra você
e meu corpo se abre em primavera
tudo em mim gira
estranha festa
e lembro das cantigas mais antigas
e volto a cantar e a florir

e me visto de roupas coloridas
e me abro ao sol
e me entrego ao mar
e me perco definitivamente
no seu olho
e faço poesias ao luar
busco seu colo abrigo e consolo
e me deixo levar pela maré

só que sonhos acabam com o dia
por mais que se tenha fé na utopia

o despertar é balde de água fria
e é o tempo que marca e encarcera

e me descubro
bem mais só
que antes era...

bem mais só
que antes era...

[elza fraga]



domingo, 23 de outubro de 2016

DAS VANTAGENS DE SER BRUXA



Quem está na vassoura voando alto não leva rasteiras.
Quem tem a feiura como companheira não atrai inveja.
Quem olha de cima escolhe melhor o alvo.
Quem tem caldeirão, poção, varinha mágica, não precisa da proteção humana.
Quem tem gato por perto não corre de rato.
Quem sabe palavras de encantamento nunca fica sozinha.
Quem só caminha por trilhas estreitas, e no escuro, treina a visão noturna.
Quem tem a chave de controle de tempo envelhece mais lento.

Bruxa só-ri, sempre, e por isso amedronta, seres humanos não gostam da alegria exibida e se mantem a distância.
Bruxa quando não é correspondida em seus anseios transforma o infiel escorregadio em sapo.

E vamos combinar, o chapéu pontudo confere um certo ar de ''não estou nem aí'' que cai muito bem em bruxas de todas as idades.

E ainda me perguntam porque deixei a candura, a varinha de condão e as roupas volumosas em azul e rosa...
Ser bruxa é muito mais interessante que ser fada.
#SóAcho


elza fraga, quase sarcástica em mês das bruxas


 — 

Xeque Mate



Meu coração
é todo anatomia
louca,
todo mãos, olhos,
boca,
todo pernas, braços
que se alongam
em tardes frias
na varanda
do peito,

dorme em leito
de lençóis macios,
se estica em abraços,
gosta de carícias,
e não perde esse jeito
de menino,

sente tua pele e arrepia,
volta correndo pro ninho
e inquieto
tenta o aconchego
desfaz os teus cabelos
desarruma tua vida,

meu coração, como eu,
não procura incerto
nas lonjuras do tempo,
sabe que está logo ali
o alimento,

anda farejando teu cheiro
por perto
e se mantém insonemente
desperto
em estado de espera
até a hora do ataque,

xeque Mate,

o bote é certo!

[elza fraga]

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

ATRAVESSANDO TEMPESTADES


Espera na varanda
da casa sem janela
passar o temporal

que passa!

Escancara a porta
quebra a tramela
que importa o vendaval

sobrante?

Se a tormenta canta
ainda assim levanta
e corre ao portão

e por que não?

Segura  em tuas mãos
meu coração pulsante
é teu oferecido

em ritual.

E que na travessia
do portal da vida
na terra indefinida

sejamos sobrevida...

Que nem sou dessa estrada
sou de outras plagas
mas te levo comigo

é só enfim

te segurar no abrigo
dos meus braços e mãos

e assim
nunca teremos fim...

[elza fraga]

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

FOI ENGANO


Só vou onde sou querida,
só fico onde sou amada,
só me demoro a pedidos...
Ou é assim ou é nada.
Não me ato aos desamores
ou calores passageiros,
só me prendo ao que me é caro...
Não quero menos que inteiros.
Não me domino no medo
a sombra de mata alheia,
fico enquanto tiver viço...
Sou só de quem me dá riso.
Procuro o derradeiro
caminho onde me complete,
não ao que se oferece
junto a despenhadeiro.
Para armar a minha rede
preciso da segurança
de florido e verde plano,
se não for assim avia,
pode ir para a coxia
e mandar descer o pano
que com certeza é engano!
[elza fraga]

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

CERTEZA DA PARTIDA



Se aqui estou de passagem
e se ao partir deixo tudo
o que colhi de bagagem
nem hei de atravessar
um centavo do caminho
por que insisto em ajuntar
sonhos torpes pelo mundo
em taças de fino vinho?

E por que o vagabundo
do coração no meu peito
não toma tenência e jeito?
Por que então sofro tanto
choro e me descabelo
se o alvo dos meus anelos
nem sabe se vou ficar
até a noite surgir?
Até o dia voltar?

E se agindo assim
juntando trapos e dias
juntando pão e vasilhas
juntando mãos tão vazias
tentando prender um pouco
de vida na concha dos dedos
tentando juntar meus medos
pra depositar aos pés
desse amor que no segredo
nublou dias infiéis,

eu só consigo notar
que foi como um furacão
que me tornou em verão
deixando devastação
incêndio, fogo, degredo.


E se sei que só consigo
perder-me pelas estradas
por que ousada ainda assim
insisto na empreitada?

Melhor seria deitar.
Talvez morrer, descansar,
se é que morte é descanso?

Ou lutar contra a corrente
que teima em me afogar
em me  tirar do lugar,
me jogar em cada canto
onde só mesmo o seu encanto
insiste em me trazer
lembranças doces e infindas
do tempo em que eu era
menina ainda... e apesar?

Não sei mais me apartar
do seu córrego que desce
a serra verde, encantada
e por mais que o tempo mude
as estações e as estradas
eu volto rebelde e louca
pro seu colo e seu entorno
e me entorno no seu olho
e me perco de danada

e faço ouvido de mouca
para as placas espalhadas
que há perigo iminente
nas curvas acentuadas
do seu corpo inconsequente
que fere mais que acidente
que mata mais que trombada.

Vou morrer só por querer
me superar, prender você,
escorregadio e indolente,
nos devaneios que levo
no silêncio da madrugada
onde me perco demente
e me transformo em semente

de fruto de quase nada!

[elza fraga]



domingo, 25 de setembro de 2016

PLANO SECRETO



Trazer você dum passado
distante,
nesse exato instante

desamarrotar o amarrotado
desfazer o contrato
que o tempo infeliz
assinou como projeto:
"Eu aqui
você lá atrás"

esse é
o meu plano secreto.

[elza fraga]

ELE...




Ele,
apenas isso
não eu e tu,
só ele...
parado,
intacto,
voltando do passado,
sorriso congelado
no rosto frio
do retrato.
[elza fraga]


QUE FAÇO SE ACORDO COM TEU NOME / DEBAIXO DAS RUGAS INSONES?



Que faço se acordo com teu nome
debaixo das rugas insones?

E se durmo com ele? E se vivo com ele nas manhãs vazias? E se essa agonia nem mais me assombra pois tornei-me em tua ameaçadora sombra, e acostumei-me a triste fantasia de desenhar-te em paredes sombrias, dentro da alma que ensandecida sente fome de ter-te por perto, noite após noite, dia após dia, como uma história dentro de gaiola que se repete em monotonia, como ondas em escuridão e fúria que nem mais sabe em que seguras praias irá desembocar tardia murmurando teu sagrado nome em poesias incorretas, incerta, louca, desperta, fitando a terra onde só os loucos e os solitários dormem... insonemente poeta. [elza fraga]

domingo, 4 de setembro de 2016

DECLARAÇÃO DE ETERNO AMOR




Cheguei 'inda agorinha 

e o coração já estreito,

mar o que fazes comigo, 

qual o poder do feitiço, 

por que me atrai desse jeito? 

Não me queres como amigo? 

Amante já sou, 

ré confessa, 

um dia, nesses teus braços, 

farei meu pouso e abrigo, 

atravessarei para a festa 

do plano além do infinito 


mais longe do que o já visto.


[elza fraga]

Imagem: Foto elza fraga, Marataízes, ES.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

MANIA



Eu teço textos,
direitos ou avessos,
mas apenas isso...

Eu não me teço!

Não há biografia,
geografia
de qualquer pedaço,
parte do meu mapa,
miolo ou capa,

nem vou junto
atada de laços
no contexto.

Apenas nuvens
que me nascem
sem controle ou culpa,
sem desculpa,
sem muita serventia,

me vem de dentro
mas não são lamentos,
pertences,
vertentes,
são só palavras
que eu aglomero,
intero,
e tento dar cor.

Se vivo parindo poesia
é mania

não é dissabor.

[elza fraga]

Fonte da imagem: Internet.

QUERO MORRER NO TEU ABRAÇO... POSSO OU PASSO?




(E seria / ainda mais legal / ter-te / pra sempre / em meu quintal!)

Eu queria
morar no teu abraço
ao menos uma vez
pra sempre...

Se é que entendes
essa urgência
d’eu não estar comigo
aqui...

Mas me mostraste
a saída de emergência

e eu entendi!

[elza fraga]


Fonte da imagem: http://celsitcho.tumblr.com/