QUEM VEM COMIGO

sexta-feira, 29 de maio de 2009

TENHO MEDO

...
Tenho medo
de espiar o segredo
guardado no fundo
do seu mundo
interior

e descobrir
que lá não estou

tem outra
enclausurada
não sai pra nada
trancada
nos pensamentos,
momentos,
lembranças, saudade

parida e doída
verdade mais certa.

E se eu soltar
a prisioneira
corro o risco
de perder a vaga
quarto e sala
sem dependências

na sua consciência
incompleta

(Elza Fraga)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

AVESSOS

.
Tô no sufoco, no osso,
no caroço,
a cara revirada
e o pescoço
olhando pra ontem
abestado.

acho que dormindo
dei mal jeito
no corpo

devo ter virado
do avesso
e nem senti
e fiquei andando
por aí
o dia inteiro

do lado errado

deixando a mostra
o feio

do chuleado

(Elza Fraga)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

DOWNLOAD




.
Cansei
de amores suados
homens mutáveis
ao sabor do vento
com cara de tempo
ruim.

Cansei de histórias
sem mim
apenas o ego
e a barriga do cego
que no fim
nem me enxerga
mais

Então nem vem
que não tem
porque agora
eu quero paz,

não te mete

que, de hoje em diante,
só namoro na internet.

(Elza Fraga)

RODOPIADOS




.
Dança comigo
colado
encosta teu corpo ao meu
tão encostado
que não passe
sequer um pensamento
entre
o meu e o teu
ventre

Depois
d'eu tonta ou louca
me toma
um beijo da boca

leve o que puder
e quiser
de mim

E então
por fim
me adormeça
ninando
assim
coçando a cabeça
cantando
antigas cantigas

e desapareça
nas sombras...

Que a tua presença
me assombra
as noites.

Preciso de uma overdose
de um porre
de prazer
de engolir teu gosto
inteiro
sem pudores
regras, leis
pra tomar vergonha
e te esquecer

de vez!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

MEMÓRIAS DERRADEIRAS

.
Levantei sorrateira
sai rasteira
como cobra sinuosa
me perdi no mundo

Se profundo foi o sofrimento
não me arrependo

porque morei
eternamente moça
a vida inteira

nas suas memórias derradeiras

(Elza Fraga)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

CHEIRO DE FÊMEA





Um jato de Quartz
atras
da orelha esquerda
da direita
metódicamente,
econômicamente

Enquanto penso
na carestia
nos preços
pela hora da morte
e me arrepia
a idéia
embora remota
de ter que abrir mão
do perfume,
por caro!

Ah, eu sem cheiro
não sou nada
sou uma fêmea
qualquer
nem se nota
nem se faz reparo

Mas com o Quartz
borrifado
atras da orelha
nos pulsos
na nuca
(atras do joelho)

Viro eu,
viro a mesa,
viro o jogo
olho no espelho
e vejo a beleza
que vem do cheiro

Abro a porta e saio
poderosa,
esqueço idade,
ano, tempo,
balançando
a juba
ao sabor do vento

-------------------

nem um salto quinze
agora me derruba

(Elza Fraga)

terça-feira, 12 de maio de 2009

MIMO DE AMIGO

Ganhei este poema do Betusko,
amigo querido que me pegou com a boca na botija,
corujando poema de filho, no Portal Literal.
Brigadim, meu querido, você muito sensibilizou
a poeta.
Meu carinho em forma de bitokitas, todas de luz, procê.


Para Elza Fraga

Olhem, amigos!
Flagrei a Fraga
flagrando seu filho.
Bom poeta este menino,
destes de abrir janelas e postigos,
de fincar a cunha nas rachaduras da alma
de cortar nos dentes, angústias e canduras.
Oxalá a Poesia os envolva – mãe e filho
e com sua baba divina os proteja
para todo o sempre.

Betusko
(Roberto Lopes Jesus)
:)

domingo, 10 de maio de 2009

PARENTESCO

(A todas as mães que, como eu, não conseguem ser santas.
Pedem somente o direito a condição de mulher.
E acham que já está de bom tamanho!)

.
Tudo que sei
e porque lembro vagamente
é que pari.

Pari com dor
e pari com corte

pari sem sorte

Então sou mãe!

És mãe?!
Perguntam
num assombro
e eu respondo:
Sou.

seco assim
e basta

que ser mãe é tarefa para poucas?
As que tem cara de mãe
jeito de mãe,
gesto de mãe

não me copiam, com certeza

As que põe mesa,
fazem cama,
arrumam casa

não são da mesma forma

são estranhas criaturas
abdicadas do seu ser
pra ser um outro ser
qualquer...

porque parir
é para todas
com a mínima competência
em arrumar parceiro

mas ser mãe,
destas com zelo
no olhar
só para as santas

não pra mortal
como eu
vivendo em corda bamba

e eu caramba,
por ironia
sequer
consigo ser só mulher
por todo um dia...

(Elza Fraga)

NOTICIÁRIO

.
Deu no jornal

Atrás da mesa.

Testemunhas:
Um computador
lâmpadas acesas
e o zelador
(escondido)

Resultado
inesperado
positivo

se for menino
Noticiário,
se for menina
nome nem tem
escolhido
(ainda)

mas quando crescer
vai ser
professora, médica
dentista,

nunquinha
jornalista!

(Elza Fraga)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

SEM UM PINGO DE MODÉSTIA




.
Eu nunca ensinei nada
a ninguém
o que sei nem a mim
me basta
não tenho pedigree,
não tenho pose,
não tenho casta

Nunca escrevi uma linha
diferente,
desse tipo de verso
que preste,
e que algum ausente
da vida
lesse e dissesse
nossa, é quase uma prece
pra se orar
nas horas derradeiras


Nunca fui linda,
mas nunca fui feia

nunca fui puta,
mas nunca fui santa

mas na vingança
não me fiz
lavadeira, cozinheira,
arrumadeira
de nenhum macho
chato

Não acho que foi premeditado
foi ditado lá do espaço

Porque eu não vivo
como os modestos
que se reconhecem

Apenas passo!

LINHA DE CHEGADA

.
Estou tão só
que o silêncio que me cerca
faz um barulho intenso
zumbindo
nos ouvidos

Amados, parceiros, amigos
todos sumiram
na esquina do tempo

deixando um oco
bem aqui no centro
do peito

Não sei de que jeito
isso se conserta
e tenho pressa de chegar
ao derradeiro

Porque todos que estavam lá
comigo
na linha de largada

chegaram primeiro

(Elza Fraga)

sábado, 25 de abril de 2009

PRA NUNCA

.
Quando amarrei você
com nó de marinheiro
na mediocridade
desta minha vida
pensei assim

como sou sabida!

Engano!

E me convenço mais disso
a cada ano
perdido
partido

É só olhar dentro
deste seu olho triste
pra saber
que o pra sempre juntos

não existe.

(Elza Fraga)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

BEM FEITO!

.

Depois que
eu fugi
como uma besta
é que percebi
a insensatez
do meu mau feito

Você sempre foi
o perfeito
pra mim.
O do meu jeito


Sobrou no fim
seu sorriso
na minha cabeça
e este arrependimento
ardido

Bem feito!
Eu merecia nem ter nascido
assim

com toda esta leseira
e com tanto tempo
vago
pra fazer asneira!

(Elza Fraga)

terça-feira, 7 de abril de 2009

TENTATIVA NUM BEIJO ASSOPRADO

.
Sopro,
como se fora Deus
a vida
pra dentro do teu
pulmão

em ares quentes

pra tentar
te fazer meu
devoto, crente,
penitente

pra sempre!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

PÁSCOA - TRISTE REPARAÇÃO







Senhor
eu nunca pesquisei
a Tua cor
a Tua etnia.
Não quis ler
Tua biografia.
Me ative só no principal,
Teu coração
doado em toda a dor,
pra nos fazer aprender
sobre o amor
Agora,
tanto tempo já passado,
estou aqui
nesta triste missão
de Te pedir perdão.
Perdão por cada um de nós
que Te ungiu com pedras,
Te feriu,
Te olhou nos olhos
e Te cuspiu.
Perdão, Jesus,
Meu Mestre e Salvador
por toda a dor que o homem
Te infligiu
Pois este erro pertence
a mim também
por extensão,
e que o Teu renascimento
a cada ano
nos traga o arrependimento
e a redenção

Amém, Amém, Amém!

(Elza Fraga)

CONTRA A CORRENTE

Ser carambola de quintal
uva na parreira
fruta madura
despencada da mangueira
moleca tola de fazer besteira...

E ver a vida a passar
na minha frente
tentar correr atrás
meio a força
meio a medo...

E me saber
impotente
brinquedo de quebrar
da vida má,

a me arrastar
- nadando -
contra a corrente.

(Elza Fraga)

domingo, 5 de abril de 2009

SAUDADES DO QUE NÃO VIVI

.
Meus olhos
rasos
de saudades
de coisas que nem vi
e nem vivi

de amores apenas
esboçados
em desenhos
toscos
na mente
onde amareleci
o antigamente.

Tudo irrealmente doído.

A alma sente
diuturnamente
o que poderia
ter sido
e não foi
virou jamais
por covardia
como um membro amputado
que ainda dói
demais.

Como a pontada aguda
do nós

que não fui capaz
de compor
e nos deixei
eternamente

a sós.

(Elza Fraga)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

SEMPRE É SOLITÁRIO O SOFRIMENTO

Por onde eu andava
enquanto tu sofrias
as dores
e o frio
da alma vazia
de esperança e sonhos?

Por onde eu andava
enquanto te agitavas
em sonhos pesadelos
de horrores e de medos?

Por onde eu andava
enquanto o pranto amargo
escorria tuas faces
desenhando vincos
refletindo um mundo
de monstros noturnos?

O meu sorriso mudo
tatuado na cara
contava
que eu andava
longe
mesmo a teu lado
mesmo ombro a ombro

Todo o ser é só
ilha isolada
quando o desespero
encontra a alma aberta
e entra porta a dentro
e faz a sua morada
no centro

dum coração deserto

(Elza Fraga)

sexta-feira, 6 de março de 2009

OS QUATRO CANTOS DA LUA

.
HOMENAGEM AS MULHERES
PELO DIA 08/03.
DIA DA MULHER É TODO DIA,
ESTE TAMBÉM!



Mulher é quase sempre lua
aquela beleza intocada,
enrustida, invertida,
clareando quando passa
mesmo vestida está nua.
mulher é quarto de lua
luzindo cores no ato
simples, corriqueiro,
de pentear o cabelo
como se fossem seus raios.

Mulher as vezes crescente
deixa os que a cercam dementes
dependentes, inseguros
as vezes mingua e sai fora
queixos caídos no chão
onde ela pisa pesado
com a ponta do seu sapato
em surpreso coração...

As vezes nova atiça
porque novidade espicaça
os sentidos... dá cobiça...
mas quando ela fica cheia,
aí é que fica bonita
pega o raio do cabelo
joga por trás do ouvido
desprende o laço de fita
e nesse gesto estudado
perfuma o ar inteiro
deixa o rastro do seu cheiro
desce em muitos luares
redonda clara, brilhante

Só faz exibir seus encantos,
nunca vai ser tua presa,
submissa, doce amante...
escapa, volta pra toca
lá do outro lado do mundo
e continua brilhando
nos quatros cantos da rua!

(Elza Fraga)

quarta-feira, 4 de março de 2009

PRA QUANDO CHEGAR MEU OUTONO

.
Quando enfim
me despir do cansaço
abrir os meus braços
fizer a comida
preparar a bebida
arrumar o meu colo

te chamo pra vida.

Quando enfim
eu limpar os meus olhos,
arrumar meu vestido
com os poemas paridos
e a tristeza for embora
pra lá do infinito

te mando notícias.

Quando enfim
a alma pequena
alçar céus imensos
se prender
nas estrelas
pra que eu nem mais veja
os rios correndo
descendo ladeiras
no mar se perdendo

te armo a mesa.

Quando enfim
os meus olhos secarem
e a matéria nem sangre
mais
os suores das dores,
e me nascerem flores
em cada orificio
jamais explorado

te dou meu ofício,
meu corpo, meu carma,
e meus estertores

te dou minha alma
-o chão onde piso,
em troca
de um riso
suave, sereno

te dou meus favores
amarelecendo
em cores
de um outono
de folhas pisadas
ao sabor da sorte

re-nascendo
da boca da morte

no vento.

Elza Fraga)