QUEM VEM COMIGO

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

CATIVA




Não é a sutileza
com que me roça
palavras
ao pé do ouvido


nem a delicadeza da mão
que me segura
leve e firme
silenciosa garra
que não arranha

nem tampouco
o olhar fixo
fito
derretido
dizendo
o não dito

que me ganha

é essa vida que explode
em suas entranhas
que me domina
eternamente
submissa

menina outra vez

e sempre
sua conquista...

[elza fraga]

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

UM QUASE FELIZ NATAL




Ontem eu vi chuva e frio, gente sob o céu tendo como teto nuvens derramando em abundância os humores de Deus. Vi cães deitados na lama já sem forças pra fugir da tempestade, do homem, da sina de não ter mão pro afago, do fardo de existir. Vi bêbados na esquina tentando aquecer a alma que o corpo nada mais aquece, e vi também os que atravessam ruas debaixo dos chapéus da indiferença encasacados coitados!

[elza fraga]

sábado, 19 de dezembro de 2015

TRANSITORIEDADE


(Mesmo que suas pétalas percam a suavidade e o poder de reter o orvalho, nada é inútil, o seu tecer faz a diferença, volta a roca, fia novamente, mesmo que o tecer lhe pareça uma incoerência por desnecessário)

Quando o dia
enfim teceu
em fios de magia
toda a sua Luz,
anoiteceu.
[elza fraga]


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

NÃO VIVI EM VÂO



Você já beijou alguém
só por beijar
sem ter sentimento
e olhou depois
sua cara de espanto
no espelho
e se recriminou
por não ter parado no momento
anterior ao beijo?


Você já olhou o luar
descendo no céu
(não subindo!)
e pensou
que aconteceria a alvorada
a qualquer momento
e a hora de retornar
a casa, a vida, a família
e a chatura dos minutos vazios
chegaria com o dia?

Você já pensou em sair
sem rumo
e se perder
em qualquer canto do mundo
andarilhando
aprendendo a assobiar aquela
antiga cantiga
que embalava seus sonhos
quando você ainda acreditava
que podia mudar a vida
na próxima esquina?

Se você não tem uma única queixa
um único momento de arrependimento
uma sensação do que não deveria
(ou deveria talvez)
ter feito...
desculpe
mas sua vida deu erro
de programação
e agora é tarde
recolhi a mão
e não a perderei mais na sua.

Somos diferentes,
demorei a perceber
porque eu agora sei
bem mais do que você
que tenho muito
do que me arrepender

Acho que cheguei a conclusão
que fui feliz, infeliz, feliz de novo
mudei de rota quantas vezes quis
amei mais que aguentou meu coração

mas não
vivi em vão...
[elza fraga
in "testamento - textos elaborados para morar nas gavetas da alma"]

domingo, 6 de dezembro de 2015

RECONHECIMENTO




Eu não sou eu
quando me culpo,
me condeno,
me puno, 
e peno...
Eu não sou eu
quando uso o "se"
como se fosse permitido
voltar atrás
e consertar o erro,
mas mesmo assim
prometo 
e esqueço...
Eu não sou eu
quando me ergo
em atitude de ataque
e atiro palavras duras
ao oponente...
Eu não sou eu
quando me julgo
não vivente
ou gente demais
pra conviver no caos...

Só sou eu
quando me aquieto
e caladamente
me recolho ao cais.

(elza fraga)

domingo, 1 de novembro de 2015

APRENDENDO A ANDAR



Tempo que escorria lento
que hoje voa
mais que o vento
traga meus sonhos de volta
leve a maré de revolta
do meu mar em pesadelos.
Se puder me devolver
a alegria que tive
e que nem sei por que caminho
e em que ponto da viagem
deixei cair da bagagem
lhe escreverei poesia
todo dia
o dia inteiro.
E lhe prometo que o medo
que sempre me toma de assalto
quando lhe vejo voando
sibilando em meu ouvido
mandarei pras terras frias
bem longe dessas que trilho
sem colocar empecilho
na sua louca caminhada
tentando aprender com a sandice
a domar a própria estrada!

[elza fraga]

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

APRENDENDO A VOAR




Preciso menos dos pés
agora é metro meu chão
medido da mesma cor
do mesmo sangue e matéria
de que é feito o coração,
minha andança é voo
sobre pétalas encharcadas
de orvalho nas madrugadas,
e nesse espaço da vida
escutei da borboleta
(que a asa aberta em ferida
se rompeu
deu um aperto, explodiu
bem no meio do peito):
Mais nada há a ser feito...
E aprendi a lição
com mais
ou com menos sorte
só se precisa coragem
pra travessia
da morte

[elza fraga]

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

CALADA-MENTE



A mente nos boicota
todo o tempo
nos engana
nos mente
nos enreda
inventa fatos
cria seus fantasmas
e nos dá
todos eles
de presente.


A mente mentirosa
inconsequente
pressente
nosso medo
e o aumenta
faz gato e sapato
de simples teoria
a esvazia dos conceitos
que dormiam
e infla
de terrorismo
e anomalia.

Cedo se aprende
ou se domina a mente
ou a mente nos domina
para sempre.

[elza fraga]

EM FASE DE ACABAMENTO



Sou só o arcabouço
de uma casa
sem emboço,
sem reboco,
sem pintura,

aos poucos
vou me moldando,
me arejando,
me caiando,

até chegar a armadura,
a laje, a pintura,
até completar o desenho
plano,

talvez demore meses
talvez demore anos
talvez demore vidas

sem pressa
vou me acabando.

[elza fraga]

DIA DA IN-DEPENDÊNCIA




Chove tanto
nessas dependências
que desconfio
que temos
alguma pendência
com São Pedro
a ser resolvida

sobre chaves
e portões
em muros
- escuros -
ainda nessa vida.

[elza fraga - 07/09/2015]

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

SEM MEDIDA



Não é o justo
que faz a medida,
não é o curto 
que me mede a vida,
não é o tosco
que decide fatos,
não é a inocência
que vai colher o ato,
não é o infinito
que desenha o tempo,
não é a loucura
que calça a estrada,
não é a fome
que norteia o homem,
nem a certeza,
é o que me guia os passos,

porque há dentro de mim
um estranho pássaro
cativo
que ainda teima
em se manter vivo
apesar
de todos os fracassos.

[elza fraga]

SE NÃO SOU POETA



Ora, se não sou poeta
o que sou eu,
o que sobraria
enfim
de meu?
A alma  respondeu:
Sobraria o que não
me ocupa espaço
não traz referencial
não liberta o pesadelo
não anestesia o medo
não vence o mal.
Sobraria
a corrida
endoidecida
pelos becos da vida,
tecendo enredos
cantando cantigas
fingindo,
péssima atriz,
ser o que não quis.
Talvez sobrasse ainda
uns restos da menina
que fui
e que recusou crescer
e no escuro me procura - tonta,
me sonda
querendo novamente ser.
Sobraria
um monte de vazio
que nunca conseguiria
preencher
e uma carcaça
(último bem que me ficou
de meu)
avisando
o quanto de nada
sou eu.

[elza fraga]

sábado, 15 de agosto de 2015

AGORA EU SEI


[Para as minhas crianças queridas, e para a criança que ainda mora em mim, apesar de…]

Ser gente grande é tão chato
que deveria ser proibido
por um decreto de lei,

os joelhos não se vergam 
pra resgatar a baixice
e a missão se complica,

o belo visto de cima
como flores no jardim
já nem é tão belo assim,

as mãos pesadas demais
para caçar joaninhas
- tão lindas -
nos subindo pelo braço,

correr , pular, esconder,
dar língua,
ficar de mal com dedinho,
ficar de bem com abraço,

acabou a brincadeira,

crescer é a maior besteira
que a gente faz,

quero ir morar pra sempre
na terra do nunca mais!

elza fraga

CANÇÃO DE CAMINHAR NO MAR

Caminhante solitário
onde vais a caminhar?
Buscar meu barco de sonho
e colocá-lo no mar.

Caminhante por acaso
ignoras 
que é proibido navegar
no mar salgado e tristonho
com suas águas a turvar
do sangue de tantos homens
que não souberam remar?

Mesmo assim quero tentar
e se nessa travessia
o meu barco derivar
me deixo ao sabor das ondas
enquanto o corpo aguentar
rezando por calmaria,

que nada entendo de remos
nem de vento e direção
mas entendo o coração
dos donos das águas frias,

os senhores do oceano,

eles vão mudar os planos
e me deixar deslizar
por todas as noites
e os dias

até a vida passar
e afogar a rebeldia,

que a terra me dê valia
enterre meu caminhar,

aceite os restos do mar.

[elza fraga]

A DO ESPELHO



Quem me ama e me conhece...
Quem sabe das minhas preces,
não é quem me sabe sua!

É aquela que, do espelho,
me olha com olhos de medo
nas noites frias, sem lua! 


[elza fraga]

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O TERCEIRO ATO




Belo não é a pele lisa,
sem vincos,
sem identidade.
Belo não é a imaturidade
do sorriso perfeito
abrindo a juventude.
Belo não é o sabor doce da boca não colhida,
as mãos nas formas sem defeito,
a imponência da inquietude
batendo no peito.
Belo é o sangue estuante nas veias
sinalizando a saída
nas curvas da vida,
é o peso dos anos curvando a fronte,
é a fonte que se bebeu
até a euforia.
Belo é a certeza de saber
que está vindo a alforria.
E, mesmo sendo noite
e lua cheia,
já se pode morrer
antes de amanhecer o dia
descer o pano,
vagarosamente
enquanto se levita pra coxia...

(elza fraga)

SÓ?!...




Partiu como chegou,
num parto inverso,
deixou o cheiro
do seu verso derradeiro,
um buraco no meu peito
e muita dor,

e os que não entendem
me explicam
o que restou,
professores
formados em incompetência
e desamor:
Só uma flor...

(elza fraga)

SÍNDROME DO CAOS



Sangra coração
que o mundo está lhe retalhando

com tal dose de sadismo

que daria pra colorir
de vermelho
o infinito

e ainda sobraria
grito.

(elza fraga)

APOCALIPSE


...Haverá dor e ranger de dentes [Mateus - 24, 51]

Aceite
minhas murchas flores
minhas dores,
meu frio suor,
meus anos
vencidos,
meu peso alquebrado
e curvado
ao que não pude
resolver, consertar
ou construir.

Aceite meu sorriso
tatuado
e meus olhos marejados
desmentindo o riso.

Aceite todo o sofrimento
que minha alma teima em dividir
e se possível
tente não sofrer
junto comigo
aprenda a difícil arte
de fingir.

Tempo virá em que
clamarão pelos céus
os arrependidos

e não serão
- sequer -

ouvidos.

[elza fraga]

HISTÓRIA PARA ADORMECER O MEDO




Repetiram tanto
a história inventada
que a verdade (de verdade!)
se cansou
de viver a louca fantasia
de fingir que era lenda
alegoria,

e se rebelou.

Despiu a renda
que lhe cobria o despudor
Saiu a rua nua
das palavras
que lhe havia
servido de engodo e rouparia
e ainda enfraquecida dos grilhões

se libertou.

Mandou embora o medo
se coloriu com a tinta
dos imprudentes
se arrastou
com as patas do amargor
bebeu toda a fonte
da coragem

e alçou voo.

[elza fraga]