QUEM VEM COMIGO

terça-feira, 14 de agosto de 2012

VOLITIVO



Tudo tão tenso.
 
Já se pode
prender
dentro das mãos
 
o fio esticado
e eriçado d'alma,
a intemperança,
a impaciência,

a velocidade da fuga.

Nada mais é volátil
ou controlável,
o irreal tomou conta
das ruas.

Olho para os
quatro lados
espio pelas nesgas do concreto
nem em suas
paredes nuas
nada é certo

só o medo,
constante e amigo,
vinca mais e mais
a profunda ruga
que rasga a testa
e resseca o grito

não há abrigo
seguro
deste lado do mundo.

Penso em outras mudanças
pras nuvens
pra esperança
mas todos os voos estão lotados
há de se aguardar
é longa a fila

de espera

me iludo
com a chance irreal
de uma desistência
ocasional

e um lugarzinho na janela.

[elza fraga]

terça-feira, 7 de agosto de 2012

PAUSA PARA DESCANS-AÇÂO


De vez em quando
mando
meu coração voar
pela janela
dos olhos

e procurar
além dos abrolhos
porto seguro,
praia em calmaria,
pra deitar um pouco
minha alma

recuperar a calma

espantar a agonia

com que o mundo
[com seus buracos
negros e profundos]

nos propicia

sem a mínima
economia!

[elza fraga]

O QUE TE DOU DE MIM



Sou feita
de amenidades,
de coisas bem pequeninas.

Nada muito elaborado
dentro deste meu tacho
de anciã, mulher, menina...

Minha alquimia impura
é mistura de manias

desencontradas,
vazias.

Não sou ouro
não sou prata

sou remendada
de lata
onde a fervura esgarçou

só o roto coração
soldado
com um raio de sol
tirado

de pleno verão
é que trago
de valor

pra colocar na tua mão.

[elza fraga]

MINAS GERAIS


[Encomendas ao meu irmão]

Quando voltar
da Minhas Gerais
me traga

de lembrança,
por favor,

o correr do rio
desde a nascente,
desenhando a montanha,
uma semente
de café
um queijo bom
em forma de pão,
um doce de leite
e um de mamão,
na memória
e na sua história
de raiz mineira,

traga-me o cheiro
que só lá existe
das manhãs

e se ainda
tiver espaço na bagagem

Traga-me a viagem
transbordando pelo olho

e nem precisa dizer nada

apenas traga!

[elza fraga]

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

FENIX-ANDO



Cantarolei
a música
que foi criada
 
quando O Criador
moldava
a minha alma

varei o tempo
com o som

foi duro descobri-la
e acertar o tom.

Meus ossos foram
se realinhando
com a cantiga
minhas veias
bombeando
sangue novo

desvesti a pele antiga
sai parida

e me reinventei
pela milionésima vez

...agora é só colher
o sorvo

e absorver a Vida.

[elza fraga]

QUANDO ME CALO



As vezes,
olhando pra dentro,
me vejo
um turbilhão de pensamentos

desencontrados,

tento escoar
toda esta lava intensa
mas a boca cala,
não consente
que eu diga
o que a alma sente
e a mente pensa
incessantemente.

Fico calada,
inflando,
e vou me conformando
com o tempo,

pois a explosão
já está
anunciada

vindo com o vento.

[elza fraga]

ALADA



Eu sei
que posso
atravessar voando
este rio

que empata meu caminho.

Triste rio
obrigado a nadar
num desafio
correndo para o mar
até não ser
mais nada
além de um fio
 
no torvelinho.

Ele é sozinho

enquanto eu
sou toda asas
a levantar
o pouco peso

...Não fosse o medo
de ousar
e trocar
o meu segredo

[perdendo a liberdade]

pelas algemas
no solo do degredo.

[elza fraga]

sábado, 28 de julho de 2012

VIDA PARALELA


Será que saberei
o dia
de desmontar
desta montaria 
feita de retalhos
coloridos
de sonhos partidos
aos pedaços
que cavalgo
por vielas estreladas
pra deitar na relva
orvalhada

da realidade consumada?

[elza fraga]

Imagem: Blue horse - Franz Marc

CONVERSAS COM A INSANIDADE



Solidão
pedaço faltoso
no meio do peito
que a gente ilude
em conversas
com o espelho.

Um dia
eu tenho esperança
o espelho responde

e a solidão vai embora
e viramos criança

ou
se ensandece na hora!

[elza fraga]

CONSOLO



Senhor
só preciso
de mais longos braços
pro abraço de conforto
e alento
que preciso tanto

faz tempo!

[elza fraga]

FUGITIVA



Estou aqui
de novo
estenda a mão e sinta
meu aconchego
meu cheiro
meu desassossego
minhas inconstâncias
minha ânsia
de voar,

de fugir do pesadelo
onde não estás
pra encontrar
tua presença
que nunca arribou.

Só eu
ave tardia
presa do inverno
fugi pro inferno
escaldei as asas
atrás do calor.

Calor que sempre esteve aqui.

Então apenas
estenda a mão
e me engaiole enfim

e finja que nunca parti
fugindo

de mim.

[elza fraga]

EQUÍVOCO [2]



Não!
Este buraco no meu peito
não é saudade
do passado
mortinho e enterrado.

É só a construção
inacabada
da vida nova
cheirando a rosa

perfeita como um folheto
de propaganda enganosa,
abandonada

no esqueleto

[elza fraga]

SAPATOS VERMELHOS


[Adaptado da história infantil (?)]

Ainda cobiço
os sapatos vermelhos
na prateleira alta, 
mesmo sabendo
o risco
da amputação.

Ah, liberdade,
dançaria até a extenuação
pelo direito de escolha
e as rédeas

do coração

mesmo perdendo
o seguro chão
sob os pés bailarinos.

Ah, alma,
por que não me libertas
e devolve
meus sapatos de trapos

em troca destes
que tanto me pesam?

[elza fraga]

FRAGILIDADE



Um sopro
assim
vindo na boca
da noite 
pode acabar
com tudo
que insiste
em mim

tão frágil
que sou
comparada
a estrada
quase toda
caminhada.

Talvez
na próxima curva
me aguarde o tempo,
com seu relógio
de chuva e vento
com sua corrente
partida

impaciente e demente

sinalizando
a saida.

[elza fraga]

SILENCIADA



Dentro do meu silêncio
mora um mundo
de palavras
engolidas
molhadas
na saliva.

Nunca me arrependi
do que omiti

apesar da acidez
do estomago ulcerado
e do coração
escangalhado
por cada ultraje

não revidado.

[elza fraga]

MISSÃO



Busca
no eu mais profundo
o coração,
traga-o pra luz  
dentro da mão
aberta,
exposto,
e sinta arrepiar
até o osso
com a visão.

E só aí
estará apta
a compreender

o que veio fazer
[de verdade]
neste mundo.

[elza fraga]

sábado, 2 de junho de 2012

PERDIDA NOITE



Frita
inquietada no leito
a carne insone
 
que a dor consome.

Nada mata a fome
do sono
que não veio

embalar meu seio.

Só deixa o rastro
ardente
e zombeteiro

vincando o travesseiro.

Quiçá virá
com um pouco de sorte
numa noite menos quente

abraçadinho
com a Dona Morte.

[elza fraga]

RECITAL


Não expirar
prender o ar
pra sempre
até inflar o coração e 
explodir a mente,

só pra constatar
quantos poemas
saltarão
desta explosão,

se virão inteiros
ou em cacos.

Depois
ser forte
pra catar
macabramente

miolos misturados
a pedaços
de poesia

e,
confrontando a morte,
perdendo o medo,

fazer um recital
do próprio enterro.

[elza fraga]

ALEGORIA DO NADA



Há que se escrever poesia
todos os dias
num ritual
 
exorcizando
o bem e o mal

até que nada sobre
de valia
apenas palavras

desmembradas
sem sentido
nuas
dentro do vestido

mente seca
alma vazia.

Alegoria
de um infinito Nada
servindo
de ponto final.

[elza fraga]

terça-feira, 22 de maio de 2012

ARRIBAÇÃO



Que a poesia me salve
de mim,
da borda
de precipício 
onde meus pés
passeiam,
das minhas mãos
cheias
de melancolia
e vazias
de ruídos de alegria.

Que cada verso
me liberte
as asas
e me mergulhe
no azul,

mesmo me tolhendo
os passos,

necessito voar pro sul,
atrás dos pássaros
cantando suas cantigas,
ganhar o espaço.

E só a poesia,
amiga das horas insones
e das madrugadas

pode,
por fim,

me livrar de mim.

[elza fraga]

terça-feira, 8 de maio de 2012

INVISÍVEIS



Somos todos
nesta vida
ampulhetas
escorrendo areia
na veia.

Sem opção
de virada
depois
de toda a areia
escorrida.

E ficamos passado
nas lembranças amigas
morando em fotos antigas
em molduras desbotadas.

Até que um dia sumimos
de vez
das ampulhetas
que ainda não escorreram
seus grãos

Viramos terra e chão
sem foto, sem nome,

ninguém mais
se incomoda
com nossa presença incorpórea,

ninguém lembra
nossa história,

como se, no fundo,
nunca
tivéssemos estado
neste pedaço de mundo.

Quem sabe
nunca estivemos
e somos apenas fruto
d'um sonho

num sono profundo?

[elza fraga]

GRADES INVISÍVEIS



Olho a rua,
canto,
um pássaro imita.
 
Procuro no galho
onde ele habita
sinais da comunicação
quase estabelecida.

Não o vejo,
cansou da brincadeira
e me entregou a solidão
de uma maneira
mais doída.

Abro as asas
sei que posso voar,
desisto,
quase já no ar,
volto parasita

É esta janela
da desdita

que me limita!

[elza fraga]

sábado, 5 de maio de 2012

TEMPESTADE



Destravei o seu portão
caminhei pelo quintal
atravessei o portal
entrei com bagagem 
e tudo

e você ali deitado
em convulsão

como um animal
indomado

como um feto
enrolado

no próprio cordão

nos seus olhos
olhei fundo

e neles só vi temporal.

Fiz o caminho inverso
cabeça baixa
coração quieto

voltei a rabiscar
meus versos

e desisti do seu mundo.

[elza fraga]

SILENCIADA



Sabiamente
logo eu tão sem sabedoria
[quanta ironia]
enfiei a viola no saco.

Perdi o direito de resposta
a hora certa de ferir bem fundo
o chão por baixo dos meus pés

quedei cabeça baixa pelo mundo.

Postura comprometida
e a zanga inevitável
com a vida,

mas uma coisa fiz
e bem direito

o silêncio é o xingamento
mais profundo.

[elza fraga]

ABORTO



Pensamento na cabeça?
tenho mais não
seu moço,
sirvo nem mais 
pra poesia.

Desde que a vida
me acuou
de tal maneira
que me enredou
na sua armadilha

preferi abortar a mente.

Somente assim
analgesia!

[elza fraga]

domingo, 8 de abril de 2012

OBSTINAÇÃO




Cortei fundo

sangrei na veia
escorri no dedo 
todo o estupor

nem senti
a dor
e o medo

da desgraça

bebi a vida
e quebrei a taça.

[elza fraga]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

AO FUGITIVO



Era meu sol
e era minha sombra
meu aconchego
e minha solidão
 
meu desespero
e meu contentamento
repulsa e atração
vertendo o tempo

Era a parceria
aquecendo noites frias
e encalorados dias
atravessando a alma

Era a calma
e o assombramento.

A segurança e o medo
o remédio e o veneno

E mesmo assim
ainda te queria
[e quero]
aqui dentro

deste inquieto ninho
que é meu peito
tão desfeito
de dignidade

e num sussurro de dor
baixinho 'inda te peço:

Entra de novo
fica a vontade!

[elza fraga]

sexta-feira, 30 de março de 2012

INCONSCIÊNCIA




A minha alma partida
foi buscar o seu lugar
cada pedaço p'rum lado.
Metade se acomodou
nos sonhos
e enlouqueceu

se achou um passarinho
nunca mais saiu do ninho.

A outra metade
perdida
não achou mais o caminho

essa metade sou eu
vagando esmolambada

sem consciência
da estrada
girando em volta do nada
procurando
pião torto

a metade que perdeu.

[elza fraga]

Fonte da imagem: http://alemdaterra.blog.terra.com.br/

.

segunda-feira, 26 de março de 2012

ACERTOS DE VIDA


Tantas vezes

renasci
num novo quarto

que nem sei 
ao certo
se sou eu
que estou aqui
sobrevivente
de tanto parto

Ou se morri
e ainda

não descobri.

[elza fraga]

EU SEI DE DEUS


[Você está girando a 1.675 km por hora, sabia?]


'Sei' de Deus

e isso
é mais que acreditar.
Não há nenhuma negação
em mim

e coloco de joelhos
minha alma em oração
agradecendo,
a maioria
com poesia.

Não existe hora certa para prece
e nem lugar.

É só lembrar que nos equilibramos
numa crosta de Terra
que ainda gira
todo o tempo
pra impossibilitar mais
nossos passos
e nem notamos
que não há nada para agarrar
senão o vento

pra reconhecer a maravilha
do milagre da vida !

Se alguém acha isso normal
e me vem com teorias mil
lamento informar
conheço todas,
nem precisa gastar
o seu latim comigo,
amigo

Eu continuo firme
por mais provas doídas que enfrente
Nada vai arrancar
a semente que Cristo plantou
fundo no meu coração
com o Seu Amor

E se Deus não tem internet,
nem tampouco Jesus

É porque não precisam disso
pois tem seguidores fiéis
que fazem este papel:

O de espalhar na rede
a nossa sede
de Luz!

[elza fraga]

DESNUDADA



Se eu escrevesse
tudo,
mas tudinho mesmo,
que vara minha cabeça
pelas madrugadas
quando só

com a insônia me comendo
a mente
num banquete insano
sem sentir nem
dó

Não sobraria uma só pessoa
que
ao cruzar comigo
raiado o dia

meio constrangida

não atravessasse a rua

sabendo direitinho como sou
de alma nua.

[elza fraga]

SEM ESCOLHA




A rua por onde anda
minha imaginação
em desenhos elaboradamente
simétricos 
é calçada de violetas
olho fixo no chão
pra não feri-las
e abro mão

de apreciar as borboletas

[elza fraga]

MEU ACALANTO É SEU



[Fica bem, somos passageiros descendo
em estações e horários diferentes]

Se eu tivesse a palavra certa
Se eu tivesse a varinha mágica 
Se eu tivesse o remédio justo
Se eu tivesse ombros andantes
consolo constante
que voasse
longas distâncias
pra deitar sua cabeça
em acalanto...

Mas só tenho a mente viajante
o meu amor incondicional
fraterno, puro,
o coração solidário ao seu
que lhe diz
Segura minha mão,
mesmo virtual
vem pro sol de novo
sinta a vida em ação
se afasta do escuro

As dores,
estas, meu amigo,
um dia

passarão!

[elza fraga]

QUEDA LIVRE



Tal e qual
o colibri
no seu bailado
inusitado

pairo no ar
por um leve segundo

sem asas pra bater
mergulho

sem cordas
pra me recolher

me conformo
no fundo

do mundo.

[elza fraga]

DESMASCARADA



Caiu a última máscara da face
e pude me ver, friamente, a nu,
sem nenhum embace

Foi como se me descamasse
casca por casca
e sobrasse
o miolo informe

alguma coisa
dentro
enfim
grita
-Conforme

o que está fora
grita
-Disforme

Enquanto os dois lados
se riem

de mim.

[elza fraga]

Foto que ilustra o poema: Leigh Bowery(1961-1994)
Presença marcante dos anos 80, designer de moda, promovia a noite londrina, foi proprietário do famoso clube noturno Taboo. Artista performático e cantor.

E NEM ERA PRIMAVERA



Nas bordas
da minha alma
debruçou-se
em algazarra
 
o canto
do bem-te-vi

e eu senti
que dentro dela
já havia chegado

da primavera
o vento

fora do tempo.

[elza fraga]

Foto que ilustra: Primavera de Taro Semba, 1960

ABDUZIDA



Como saber
quem é você
do que
é capaz
 do que zomba
esta cova
do seu queixo?


Mesmo assim
corri atrás

imantada

e nunca mais
me achei
 na estrada

Acredito que virei semente
plantada
dentro
do seu peito

desse seu desconhecido
jeito

mas nada ficou
mais perfeito

como morada.

[elza fraga]

POSSESSÃO




Mesmo arrastando
os meus rastros
pesando na corcunda
o tempo vil
que corre
pra desesperançar
meus passos
querendo me desentocar
deste covil

pois só assim
sem abrigo,
sem nada
a esconder a cara
sou presa fácil
ao fim.

Eu não desisto
e jogo o laço
e enlaço a vida
e a prendo a mim

[elza fraga]

PLANETA CEGO





Quem se importa com a baleia
que encalhou na praia
e ficou ali em agonia?

...
Quem se importa com o cão
arrastado por gente vazia
até a morte?

Quem se importa com a sorte
dos sem pão
dos sem teto
da desdita?

Quem se importa
com o choro da Terra
impotente
dolorida
encolhida

que nada pode
contra o coração
duro
do homem?

Quem se importa
se há fome
dor e desespero
poluição e medo?

Quem se importa
em fechar feridas
doar amor

salvar a vida

abrindo a própria
porta
escancarando a alma
criando calma?

Quem se importa?

[elza fraga]

domingo, 25 de março de 2012

POR QUE?




Melancolia
correndo na veia
enquanto o sangue
escorre
denso
em poços imensos

A lua apressada
crescendo
pra ficar cheia
e esta dor danada
nascida do atrito
do tempo no vento.

E a pergunta
parida num grito
do medo
de nunca mais vê-las:

Por que me roubaram as estrelas?

[elza fraga]

DESGARRADA




Decidi
só vou ouvir
a voz
do próprio coração
e seguirei a risca
a intuição.

Ficarei surda
aos que mentem
bajulam
trapaceiam
se acham com a razão

puxam os nossos tapetes
e se riem
ao nos ver nariz no chão.

Ficarei muda
aos que se estendem
em maledicências
falando
na ausência
o que calam na presença.

Não mais seguidora do rebanho!

Sou a perdida que ficou atrás
do bando
cada vez mais longe

E nem me importo
se acham anormal
estranho

Sai da fila
dos seres humanos.

[elza fraga]
...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

MIMO DE AMIGO



Mimo de amigo

 Este selo veio de presente do blog TÁVOLA DE ESTRELAS do amigo JouElam E. Dallavecchia. Agradeço e retribuo com um enorme abraço de Luz.
http://pt-br.facebook.com/jorgeedani

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

DERROCADA




Sabe aquela calçada
onde sentada eu ficava
olhar perdido na luz
dum infinito de estrelas
que cavalgavam a estrada
pendurada no espaço?

Ainda estou aqui sentada
mas com os olhos na calçada,
pois descobri
que só aqui, 
bem baixo,

é que te acho.

(elza fraga)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O DIA EM QUE A POESIA PARTIU




Tem vezes que a poesia foge
vai morar em outra freguesia

e o poeta fica inanimado
como quem morre,
como a quem falta
o pão de cada dia.

Um dia a poesia parte
some sem dizer motivo
e leva junto
o sorriso da cara
leva os sonhos
doces amigos das horas vazias
quando as madrugadas esfriadas
colocavam a pena
nas mãos enregeladas
do poeta.

E aí é como se fora
festa acabada,
velório, luto,
saudades extremadas
morte do vate...

Quando a inspiração se vai
a poesia senta na calçada
queda calada
e o poeta mudo, 
fica cego,

tateia e não acha
---------------------------------------- 
se morre
se mata!


(Elza Fraga)

NÃO TEM GENTE!





(Da série verdades que só eu sei)


Quem morou
dentro
deste peito
deu um jeito
nas tralhas
e partiu

só ficou a casca
olhando pro vazio
perscrutando 
o fim

Não deixou link
pra correspondência
desculpe a ausência

de mim.

(Elza Fraga)

domingo, 13 de novembro de 2011

INVERTENDO A VIDA




Andar 

até onde 
a estrada da memória 
não alcança

Correr mulher
morrer criança

(Elza Fraga)

EQUÍVOCO




.
Só olha

não entende nada

e diz:
"Coitada
não chora"

Esta lágrima
que escorregou
é só o por do sol
saindo
pela mesma janela
que entrou

e de tão bonito
quase me cegou

(Elza Fraga)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

UTOPIA



Na noite nua
só vazio

e um grito

que partiu
o infinito

a lua caiu!

(Elza Fraga)


A FUGITIVA



A FUGITIVA

Vim de mala
seu moço

recolher a fala
catar meus cacos

pedaços esparsos

a rede
fica de herança
pelo trabalho

que dei

...descansa

(Elza Fraga)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

SOLITÁRIOS



Jamais veremos juntos um ocaso.
O esplendor do mar
encapelado ou calmo.
Uma estrela azul
riscando o céu.

Jamais veremos juntos
o fim da madrugada.
A alvorada abraçando a vida.
A chuva batendo na calçada.
A minha mão suada na tua mão querida.
Minha cabeça no teu coração.

Jamais veremos juntos
duendes e fadas.
Moleques sujos com os pés no chão.
O mendigo na esquina da minha rua
a esmolar afeto mais que pão.

Jamais terei minha boca na tua
nessa hora em que os solitários
adormecem tristonhos,
e só os casais ficam inventando sonhos.

Jamais conseguiremos juntos
a felicidade
de, peito no peito, presa a liberdade,
partilharmos o leito onde as loucuras
tomam forma de verdades.

Jamais veremos juntos
flores na primavera.
Eu as verei daqui, solitário cantinho,
solidário abrigo das noites vazias.

E tu - eu sei - as pisará sem ver,
neste estranho caminho de musgo,
de hera,
que imaginas de aço, de ferro,
de pedra.
Que percorres de cor
sem precisar de guia,
como se todos os dias fossem
o mesmo dia!

Seguirás teu asfalto.
Pisarás tuas pedras.
Sem conseguir enxergar
a beleza do ocaso.
Sem nunca notar
que já é primavera!
 
(Elza Fraga)
Publicado em: 28/05/2007 18:53:24