QUEM VEM COMIGO

segunda-feira, 26 de março de 2012

ABDUZIDA



Como saber
quem é você
do que
é capaz
 do que zomba
esta cova
do seu queixo?


Mesmo assim
corri atrás

imantada

e nunca mais
me achei
 na estrada

Acredito que virei semente
plantada
dentro
do seu peito

desse seu desconhecido
jeito

mas nada ficou
mais perfeito

como morada.

[elza fraga]

POSSESSÃO




Mesmo arrastando
os meus rastros
pesando na corcunda
o tempo vil
que corre
pra desesperançar
meus passos
querendo me desentocar
deste covil

pois só assim
sem abrigo,
sem nada
a esconder a cara
sou presa fácil
ao fim.

Eu não desisto
e jogo o laço
e enlaço a vida
e a prendo a mim

[elza fraga]

PLANETA CEGO





Quem se importa com a baleia
que encalhou na praia
e ficou ali em agonia?

...
Quem se importa com o cão
arrastado por gente vazia
até a morte?

Quem se importa com a sorte
dos sem pão
dos sem teto
da desdita?

Quem se importa
com o choro da Terra
impotente
dolorida
encolhida

que nada pode
contra o coração
duro
do homem?

Quem se importa
se há fome
dor e desespero
poluição e medo?

Quem se importa
em fechar feridas
doar amor

salvar a vida

abrindo a própria
porta
escancarando a alma
criando calma?

Quem se importa?

[elza fraga]

domingo, 25 de março de 2012

POR QUE?




Melancolia
correndo na veia
enquanto o sangue
escorre
denso
em poços imensos

A lua apressada
crescendo
pra ficar cheia
e esta dor danada
nascida do atrito
do tempo no vento.

E a pergunta
parida num grito
do medo
de nunca mais vê-las:

Por que me roubaram as estrelas?

[elza fraga]

DESGARRADA




Decidi
só vou ouvir
a voz
do próprio coração
e seguirei a risca
a intuição.

Ficarei surda
aos que mentem
bajulam
trapaceiam
se acham com a razão

puxam os nossos tapetes
e se riem
ao nos ver nariz no chão.

Ficarei muda
aos que se estendem
em maledicências
falando
na ausência
o que calam na presença.

Não mais seguidora do rebanho!

Sou a perdida que ficou atrás
do bando
cada vez mais longe

E nem me importo
se acham anormal
estranho

Sai da fila
dos seres humanos.

[elza fraga]
...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

MIMO DE AMIGO



Mimo de amigo

 Este selo veio de presente do blog TÁVOLA DE ESTRELAS do amigo JouElam E. Dallavecchia. Agradeço e retribuo com um enorme abraço de Luz.
http://pt-br.facebook.com/jorgeedani

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

DERROCADA




Sabe aquela calçada
onde sentada eu ficava
olhar perdido na luz
dum infinito de estrelas
que cavalgavam a estrada
pendurada no espaço?

Ainda estou aqui sentada
mas com os olhos na calçada,
pois descobri
que só aqui, 
bem baixo,

é que te acho.

(elza fraga)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O DIA EM QUE A POESIA PARTIU




Tem vezes que a poesia foge
vai morar em outra freguesia

e o poeta fica inanimado
como quem morre,
como a quem falta
o pão de cada dia.

Um dia a poesia parte
some sem dizer motivo
e leva junto
o sorriso da cara
leva os sonhos
doces amigos das horas vazias
quando as madrugadas esfriadas
colocavam a pena
nas mãos enregeladas
do poeta.

E aí é como se fora
festa acabada,
velório, luto,
saudades extremadas
morte do vate...

Quando a inspiração se vai
a poesia senta na calçada
queda calada
e o poeta mudo, 
fica cego,

tateia e não acha
---------------------------------------- 
se morre
se mata!


(Elza Fraga)

NÃO TEM GENTE!





(Da série verdades que só eu sei)


Quem morou
dentro
deste peito
deu um jeito
nas tralhas
e partiu

só ficou a casca
olhando pro vazio
perscrutando 
o fim

Não deixou link
pra correspondência
desculpe a ausência

de mim.

(Elza Fraga)

domingo, 13 de novembro de 2011

INVERTENDO A VIDA




Andar 

até onde 
a estrada da memória 
não alcança

Correr mulher
morrer criança

(Elza Fraga)

EQUÍVOCO




.
Só olha

não entende nada

e diz:
"Coitada
não chora"

Esta lágrima
que escorregou
é só o por do sol
saindo
pela mesma janela
que entrou

e de tão bonito
quase me cegou

(Elza Fraga)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

UTOPIA



Na noite nua
só vazio

e um grito

que partiu
o infinito

a lua caiu!

(Elza Fraga)


A FUGITIVA



A FUGITIVA

Vim de mala
seu moço

recolher a fala
catar meus cacos

pedaços esparsos

a rede
fica de herança
pelo trabalho

que dei

...descansa

(Elza Fraga)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

SOLITÁRIOS



Jamais veremos juntos um ocaso.
O esplendor do mar
encapelado ou calmo.
Uma estrela azul
riscando o céu.

Jamais veremos juntos
o fim da madrugada.
A alvorada abraçando a vida.
A chuva batendo na calçada.
A minha mão suada na tua mão querida.
Minha cabeça no teu coração.

Jamais veremos juntos
duendes e fadas.
Moleques sujos com os pés no chão.
O mendigo na esquina da minha rua
a esmolar afeto mais que pão.

Jamais terei minha boca na tua
nessa hora em que os solitários
adormecem tristonhos,
e só os casais ficam inventando sonhos.

Jamais conseguiremos juntos
a felicidade
de, peito no peito, presa a liberdade,
partilharmos o leito onde as loucuras
tomam forma de verdades.

Jamais veremos juntos
flores na primavera.
Eu as verei daqui, solitário cantinho,
solidário abrigo das noites vazias.

E tu - eu sei - as pisará sem ver,
neste estranho caminho de musgo,
de hera,
que imaginas de aço, de ferro,
de pedra.
Que percorres de cor
sem precisar de guia,
como se todos os dias fossem
o mesmo dia!

Seguirás teu asfalto.
Pisarás tuas pedras.
Sem conseguir enxergar
a beleza do ocaso.
Sem nunca notar
que já é primavera!
 
(Elza Fraga)
Publicado em: 28/05/2007 18:53:24

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

AS VOLTAS QUE O MUNDO ME DEU

 
 
Era rio
desci cachoeira
hoje sou regato
de final de linha

Que sina
a minha
ficar parada

abestada

com o olhar
perdido

no nada.

Elza Fraga

EVOLUÇÃO AS AVESSAS

 
 
Quando me for
quero voltar em flor
que isso de ser gente
dá um trabalho danado

deixa demente

Elza Fraga

domingo, 18 de setembro de 2011

ATUALIDADE

 
Lembra quando sorria?
Havia um certo trejeito
uma covinha na face

agora a face trincada
em dentes que não se mostram
me viram as costas
no espelho
 
Deve ser medo
da resposta do tempo
da boca escancarada
da máscara arrancada

do inteiro, do intenso
do enredo,
do cerco
do esterco da alma
morta
da projeção do enterro

tentando arrombar minha porta.

Elza fraga

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PESADELO




Com a boca
da medonha
escancarada
sórdidamente forte

como um avesso
de sorte

a lingua deslizante
rastejante
 
como traiçoeira cobra
salivando
minhas sobras  
 
entre entradas
e entranhas

fingi de morta
fiz que era santa
voltei criança

Burlei a morte.

Elza Fraga

sexta-feira, 1 de abril de 2011

E EU NEM CONHEÇO NOVA IORQUE

..
Quem vai  debruçar
em minhas mãos,
enlaçar um terço,
rezar uma oração
com a simplicidade
dos que oram
sem pranto,

só com o coração?

Quem,
enquanto espero
a saida
finalmente,
vai olhar meus olhos
como crente
com amor, respeito
ou devoção?

Quem,
diferente dos demais mortais,
vai lembrar da morada espiritual
a casinha
de janela amarela
com jardim
que sempre sonhei pra mim
depois da ida?

Quem vai chorar a minha morte
se eu nem conheço Nova Iorque?

Elza Fraga

..

VAGAROSAMENTE

...
Prisão involuntária
vidro da janela
há vida lá fora
...
sol brilhando agora

dentro do meu mundo
só cheiro de morte
fedido
...nauseabundo

até chegar ao fundo
e aí se finda
a última engrenagem
...funcionando ainda

(Elza Fraga)

domingo, 13 de março de 2011

DIA DA CAÇA




Ah, vida
porque castigas
com tremores,
...
fendas escorrem nos rios

trama
ondas gigantes
mata teus próprios filhos

desespera quem te ama
nos deixa de peito vazio
e nos preenche de medo

e frio!

(Elza Fraga)

sábado, 5 de março de 2011

O MURMURAR DO SILÊNCIO

...

Sem palavras,
todas fugiram.
Calar é ouvir o silêncio

esse eu recomendo
diariamente
noturnamente.

Então não se espantem comigo
se emudeci o canto,
e abri as comportas do pranto

A alma seca a luz
como se pendurada
 em cruz

perdida

num varal
qualquer da vida

(Elza Fraga)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

NO FUNDO D'UM OLHO SECO



 

Enfim o livro parido, obrigada a todos que ajudaram com apoio, amor, incentivo... 
Grata por toda a energia  positiva enviada para que eu pudesse ter forças e superar os obstáculos.
Bitokitas de toda a Luz!

Elza Fraga

segunda-feira, 24 de maio de 2010

MOTIM

Meu universo é inverso
vive de ponta cabeça
por mais que eu endireite
ele a noite
aproveita
a hora em que adormeço
pra fazer malcriação

e se vira do avesso
e põe o pé na cabeça
e a cabeça no chão

universo que não deixa
nem os meus versos direitos
quebra a rima
parte ao meio

Um dia
imito o seus feitos
com o jeito que Deus me fez
amarro ele nas pontas

e acerto as nossas contas

(Elza Fraga)

ALQUIMIA DO FRACASSO

E lá vou eu
de coração
na mão

tentando a transformação

fazer da matéria
uma estrela

de qualquer grandeza

ouso voar,
meio zonza,

me embolo toda
nos raios azuis,
distorço
o feixe de luz

e fico,
extática,

em oferenda.

Mas é difícil
o sangue estancar
quando

ainda madruga

e a gente
se espraia no ar,
meio fuga,

meio prenda.


(Elza Fraga)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

PROCURA-SE MÃE QUE SUMIU


Foto devidamente roubada de orkut da irmã, rsrs.



Eu nunca soube
ao certo
quantos éramos.

Só lembro de muito barulho,
da algazarra,
das risadas permeadas

de coisas bobas
[hoje morando
nas  lembranças]

antes engraçadas
por estarmos todos
crianças.

E  no meio
desta gritaria

-gigantesca
a mãe
que tudo sabia

num afã
de dar conta
de cada cria

Ela acreditava
que podia,
talvez  por isso
desse tão certo

com ela.

Mas o tempo,
inimigo implacável,
tirou a dona da roda
do nosso meio

e qual pintos assustados
espalhados
por todo o canto
nos deixou atarantados
e sem rumo

Até hoje sem prumo
procuro
aquela bruxa fada

que remexia
o tacho
e abaixava o nosso facho
com seu feitiço certeiro

e não acho.

(Elza Fraga)
.

terça-feira, 4 de maio de 2010

INQUIETUDE


Desenho de Jorge Luis Borges sobre o tango

Botei o vestido
de domingo
desbotado
os sapatos
tinindo de apertado

com salto sete
para passo lento

cabelo solto
ao vento
batom vermelho
morango

e fui procurar parceiro
pra dançar um tango

que isso é o tudo
que aguento

por enquanto

(Elza Fraga)

sábado, 1 de maio de 2010

DUO

TRAMPO

Bondade sua
ser tão generoso,
nem precisava tanto,

só o sorriso no seu rosto
já paga o trampo!


PEÃO DE OBRA

Sentou no saco de cimento,
abriu a marmita
cheirou
e decidiu,

hoje ia mandar
a patroa

pra dona
que a pariu

(Elza Fraga)

sábado, 24 de abril de 2010

RECEITA PRA ENGANAR O TEMPO

O tempo zombeteiro
pega a gente
leva na torrente.

Brinca de morta
que ele sai
da sua porta!

(Elza Fraga)

terça-feira, 20 de abril de 2010

PROFISSIONALMENTE

Não contratem
parentes
pra chorar
a minha morte

molhando meu coração
e meu caixão
sem nenhuma emoção

apenas obrigação
indecente

chamem as carpideiras

elas entendem bem melhor
desta função


(Elza Fraga)



terça-feira, 6 de abril de 2010

SÓ O QUE BASTA



Eu

mais um cachorro
triste
gemente

mais um apartamento
envolvente
[prisão quente]
me aranhando
as suas teias

mais o sangue
dolorindo
as veias
espremidas
tentando sorver
vida

mais um livro
trambolho
letras embaralhadas
no muco do olho
páginas ao léu

mais uma janela
que
aberta
dá direito
ao céu

Essa é a minha
paz
a minha
ilha

estrelas completam
a família

(Elza Fraga)

terça-feira, 9 de março de 2010

ENSAIO DE DESPEDIDA

(É apenas um ensaio, quem sabe daqui a cem anos escreva um outro melhor, rs?
Serve apenas para explicar minha ausência e para matar, um pouquinho que seja,
esta vontade enorme de poder estar inteira, novamente, na net)

.
Aos que agradei
e que- de algum jeito-
me amaram,
aos que não me suportaram,
aos afetos, aos amados,
aos desafetos confessos,
aos partidos, aos ficantes,
aos que abandonaram o barco
por fadiga,
no instante exato
do apito de partida,
aos que deixaram  melhores
[ou piores]
os momentos voantes
da minha vida.
Aos passantes, aos solidários,
aos falsos amigos, aos de verdade,
aos reais, aos virtuais,
aos que se foram
sem sequer terem tentado
atingir meu coração,
aos que conseguiram,
aos que me leram a alma,
aos que me tiraram o prumo
e a calma,
aos que espremeram meus olhos
até cair o pranto,
aos que secaram a face dolorida...
Aos que persistiram
e acompanharam
até o fim
Deixo a todos, como herança,
uma lasca enorme

de mim.

(Elza Fraga)

sábado, 24 de outubro de 2009

CANÇÃO DA MENINA TRISTE

 ARTE DIGITAL : FATIMA QUEIROZ
.
Era só uma menina
tinha a pele delicada
[tão linda tão linda]
um rosto
bem posto
sem choro
ou desgosto
sem bem e sem mal

a menina tinha um olho
de uma cor especial
era um olho tão bonito
era um olho abissal
[era verde era verde]
como o prado e o quintal

era um olho de menina
enfeitado de cristal

O cabelo da menina
era a luz do sol nascente
[era belo era belo]
amarelo e obediente

aceitava o pente fino
aceitava o pente quente
aceitava qualquer pente

A menina era tão clara
como a lua já no meio
do céu lindo
do céu pronto
das estrelas de permeio

era só a cor de leite
misturada com azeite
escorreguenta e manhosa
branda como a branca
rosa


A menina se encantou
pelo principe da esquina
e fugiu no seu cavalo
como fogem as meninas
que esta era a sua sina
[e este foi o seu mal feito]

Hoje ela só desencanta
corre pra longe da dança
do trabalho, corredeira,
fraldas, filhos, mamadeira

E a menina tão princesa
virou mãe
tão pequenina
que ninguém sabe
entre todos
quem é filho,
quem é sina,
quem é menino ou menina

Nunca mais a brincadeira,
o olho da cor do mar
o sal grudado no corpo

só susto do despertar
e ver que agora é a sério
acabou a brincadeira

e a menina tão bonita
ficou velha
de idade
ficou triste
de maldade
de repente

ficou feia
para sempre!

(Elza Fraga)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

SÓ--FADA

.
Era fada
linda, leve,
má e mágica.

Só uma fada.

Fluida
fugidia
escorregava

condão preso no cordão

arrastou
por todas as calçadas
meu coração
acorrentado pela mão

esmigalhou, sangrou
ralou nas pedras
como se rala
o queijo parmesão

me fez comida
bebida
me fez restos

e se hoje eu não presto
mais
pra nada

cobrem da fada!

(Elza Fraga)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

UMA PEQUENA PARADA

Estarei mais de um mes fora da net.
Volto no final de outubro. 
Fiquem na luz. Bitokitas.



sábado, 12 de setembro de 2009

AI QUEM ME DERA

.Quem me dera ser poeta
cantar o feio da vida
e transformar em beleza

proeza

Quem me dera ser princesa
entrar em conto de fada
e ser feliz para sempre

demente

Quem me dera ser presente
atado a laço de fita
deslumbre de quem me fita

bonita

Quem me dera ser poema
escrito as pressas
sem pena
rabiscado num caderno
e assinado

'ausente'

Quem me dera ser um nada
postado a margem da estrada
correndo a envelhecer

pra não querer ser o mundo

Quem me dera
não me ser

(Elza Fraga)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

MÃOS CHEIAS DE DEPOIS

.
Não se goza o momento
ele passa

nem a vida
ela voa

nem os homens
eles partem

e deixam a gente
com olhar ausente
perdido
estendido pro nunca

com a mão cheia
de vazio
de gozo que poderia
e não foi

 de depois

(Elza Fraga)

sábado, 29 de agosto de 2009

CON-FUNDIDA

...
Perdeu a hora
a honra
a noção do perigo

E como diz o antigo
[e
bem mais sábio]
deitado
ao lado

'botou as perninhas
entre o rabo'

ou seria a-o contrário?

(Elza Fraga)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

'INDA AGORINHA ERA EU

.
Alguém me roubou
a casca
me tomou,
me dissolveu,
abduziu, induziu,
me transformou
me perdeu

'Inda agorinha era eu

Minha palavra não fala
quase tudo escureceu
a boca muda, fechada,
parece que enlouqueceu
de silêncio
de espreitada
de nada que aconteceu

'Inda agorinha era eu

O ar some na garganta
e fica a fome e o frio
dos que só vagam vazios
sem bagagem
hospedagem
sem documento ou registro
nas noites dos indormidos

'Inda agorinha era eu

O grito parou na porta
nem fugiu
nem se escondeu
escorregou pela lingua
mas morreu
sem ser parido

E agora é tudo breu
onde agorinha era eu!

(Elza Fraga)

domingo, 9 de agosto de 2009

ME VEJA

.
Por mais que eu me abra
me escancare e mostre
você enxerga em mim
o que não quero ser
e que talvez nem seja

e grito lá do fundo
"Por favor me veja"

Se fito o espelho
ele me mostra a outra,
a louca
que há no fundo
do meu mar calmo e azul

Só você me vê
pássaro migrante
indo para o sul

enquanto eu me sei
voltada eternamente
para o norte
olhando o horizonte

esperando a morte

(Elza Fraga)

VIDA

FORMATAÇÃO DE REGINA XAVIER
IN POEMA DE ELZA FRAGA


ENQUANTO CANTO

.
Crescem no chão
ervas daninhas
e a terra sobe
em montes

enquanto canto.

Descem raios
em diagonal
e a chuva molha
cabeças pensantes
e as nem tanto

enquanto canto.

No entanto
tudo normal no front
só a fronte que me arde
em febril
agitação
queima a mão
com que busco
o conforto

e tosco o mundo
continua a sua gira
pião
inconsequente

tonteia o olho que acompanha
o rodopio

Olho pro fundo
e vejo a verdade

o fundo do mundo
é vazio!

(Elza Fraga)