QUEM VEM COMIGO

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SENTADA NO ABISMO

Deixa o desgosto de lado
que o futuro imaginado
promissor
vai chegar
quem sabe
um dia.
Espero que ainda dê tempo
de num leve cumprimento
saudá-lo
como merece
com requinte
e cortesia.
No mais
é esperar em Deus Pai
em recolhimento e prece
e aturar a covardia
comendo o pão amassado
pelo pé do inominado
até chegar a alforria.

[elza fraga]

DERRAMANDO O CANSAÇO

Tem mais de mim
em mim
que gostaria.

As vezes tento buscar
em terra estranha
- mentes alheias -
um pouco de estranheza
um olho mais atento
menos tormento.
Minha alma anda cheia
de ser eu mesma
todo o tempo!

[elza fraga]

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

POEMETO DESCOMPROMISSADO



A felicidade
(igual a tristeza)
se engaiolada
encolhe suas asas
e vaza pelas beiras.

[elza fraga]

Fonte da foto: Internet


sábado, 21 de fevereiro de 2015

ESCURIDADE



Paira uma perpétua noite
debaixo de céu encoberto,
nem um raio de luar
vence o negrume
pra iluminar
a alma dos despertos,

bichos alertas
vagam seus desertos...

Ao longe uiva
um cão desesperado
perdido da matilha

girando louco
na roda da trilha
dos desamados...

Nem a luz
d'um simples vaga-lume
alumia essa noite inquieta
onde os homens
e seus pesadelos
rolam cobertas...

Se amanhecer
nada será o mesmo,

se amanhecer
só sobrará o medo

pra acalentar
os dias de degredo,

sem uma única
casa de porteira
e
janela aberta.

[elza fraga]
 — 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

FINITUDE



Muito tempo faz
que só durmo
quero novamente
o turno
das manhãs
de sol,
a delicadeza
do espreguiçar
sem medo,

o acordar
com a chave do caminho,

o barulho do passarinho
na janela,

aguar as minhas plantas,
cheirar a minha hera,
sorrir
pras flores que se abriram
durante a primavera,

desvendar
o segredo da madrugada...

Depois uma taça de vinho,
uma rede
pro corpo cansado,
seu abraço
apertado,
morrer

mais nada.

[elza fraga]

HODIERNIS



Existiu um tempo
faz tempo
em que pessoas
eram só isso:
gente

houve de repente
mistura de raças
ou mudança de era?

Cruzamento com zumbis?
Talvez...

Nem sei...

Agora
toda gente
é misto
de bicho peçonhento
com verme fedorento

e traz imerso
em seu esconderijo

antes alma
hoje ego

o símbolo medonho

o pentagrama inverso

os chifres denunciam
a coroa...

O arreganhado da boca
e a postura de ataque

diz claro

ou corra
ou mate!

[elza fraga]

domingo, 28 de setembro de 2014

PLANOS


PLANOS

Chegará o dia
em que
não estaremos mais aqui
e de onde quer que sejamos
apenas mais fio de luz
para o universo
repudiaremos os dias
em que nada fizemos
além de planos, planos, planos...
deixando escoar o tempo
entre dedos dispersos

(elza fraga)

AVESSO

AVESSO

O que tem dentro de mim
que desconforta
como espinho ferindo a alma dura?

O que tem dentro de mim
que não se cura
com os remédios de amor
que estou tomando?

O que tem dentro de mim
além de pranto
além da profundidade
da ferida?

O que tem dentro de mim
que leva a vida
e paga com parcelas de amargura?

Alma nua sente frio na estrada
porque tem dentro de mim
um imenso nada
como buraco
cavado para o enterro
dos medos
que vivia carregando...

(elza fraga)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

INVISÍVEL PRISÃO


E o pássaro perdeu a vida
preso,
morreu seu canto,
caiu-lhe as penas
e nem chorou
- nada sabia de pranto -
abateu-se indefeso.

Teve pena de si
deu a morte como certa.

Esqueceu
por todo tempo
de olhar a porta da gaiola

aberta

[elza fraga]

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

RES-POSTANDO

(Respondendo aos que patentearam suas certezas)

Permita-me,
caro amigo,
a opinião
mesmo que esteja
errando no pitaco.

Penso diferente,
sou eloquente
e falo
quando certo seria
o calo,
mas como cada um sabe
onde o seu aperta
descruza as mãos
da minha garganta
pro meu berro ecoar inteiro.

Como todo bom brasileiro
me estico
nas magias e artimanhas
pra chegar inteiro
no fim do mês
quando o salário,
salafrário,
já partiu
pra fonte que o pariu.

Sobrevivência
aprendi fora da escola,

e sem direito a cola,

então muda a sua certeza
pro andar de cima
e me deixa,
por delicadeza,

me virar nos trinta
ou virar a mesa.

[elza fraga]


sábado, 1 de fevereiro de 2014

COMUNICADO


Quando ficar bem velhinha
- que os anos me pesem pouco -
não escutarei os netos
me farei de ouvidos moucos,

usarei chapéu lilás
de abas escancaradas,
flor na gola da camisa,
pisarei com a sandália
na barra da saia rendada
alvejada de branquinha...

E em licença poética
flertarei com o motorista,
com o porteiro,
ascensorista,
e quem mais me der na telha...

E mesmo que chegue aos cem anos
Deus me livre de ser velha!

[elza fraga]

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

MINTO PORQUE TE AMO


Minto porque te amo
e verdade dói como facada
na jugular.

Minto porque a realidade
é feia demais,

ninguém aguentaria
sem anestesia.

Minto não só porque
analgesia
e protege,

é porque teu coração
fraco,
rapaz,
não suportaria
minha história pregressa.

Minto porque a mentira
que possuo
é leve como a brisa calma,

e a verdade
ah, essa pesa e inquieta
até minha alma
que é feita
de couro curtido
do dragão
mascote de Átila,

e é sombria
como noite fria sem coberta.

E minto
até o fim

 pra te proteger de mim.

[elza fraga]

sábado, 11 de janeiro de 2014

...E SE?


E se eu conseguisse você
numa tacada de mestre?

Remédio
em amostra grátis?

Brinde de supermercado,
vitrine exposta
quase a preço de custo?

Ah... O  susto
não me  valeria
a mercadoria.

A facilidade mataria
a vontade
de radicalizar
e canibalizar
os seus despojos.

Só o que dói fundo assim
[o que machuca até o osso]
como
esse seu ar de desgosto
e a sua apatia
quando me vê
em plena correria

procurando o seu afago,
balançando o rabo,
e ganindo de alegria
atrás da coçadinha
no pescoço

é que faz valer o jogo.

O que dá prazer e gozo
é a caçada
quando se tem a caça rara
e arisca.

Arrisca
que me venha inteiro
e eu,
num ato
de puro masoquismo,

empurre o que poderia
ser
pro fundo do abismo
dessa existência
enxabida

e transfira tudo
pra próxima vida?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

CONSERTANDO Á-VIDA



Se o tempo não fosse tão cretino,
mais consciente
e nem tão menino
mimado

e me deixasse apagar
com borracha escolar
algumas rasuras

acertaria fatos.

Amaria menos
perdoaria menos ainda

porque quando a vida enfim 
virar a obrigatória
esquina 

só ficará na lembrança
do desafeto

minha postura 
como pura covardia

o meu perdão
como acintoso gesto

minha doçura
como mentirosa

e meus versos
desconsiderados

por qualidade
duvidosa.

[elza fraga]

DECISÃO


Decidi
se partir mais um amigo
pra terra
lá dos confins
onde meu olho não alcança
faço minhas malas
teço minhas tranças
pego o trem
destino fim
e ninguém mais 
me alcança
pra dizer palavras de conforto
que não me confortam
me prefiro morta
a doer assim.
[elza fraga]

domingo, 22 de dezembro de 2013

CONSOLAÇÃO ÀS AVESSAS


Você se foi
tão antes de mim,
só pra me dar
o desprazer 
de dizer
[fitando a estrela em que habita 
- e o espelho]

olha, menino,
o que a vida faz
com quem insiste
em viver
demais.
[elza fraga]

CONSIDERAÇÕES DE UM ÚLTIMO NATAL


Quem quiser ter filhos 
por perto,
no entorno
do seu inverno
pra adoçar
a viagem
da ida
- sem retorno -
seja esperto,
seja forte,
compre a briga
e prepare o ventre
pois uns se perde
ainda na barriga
outros pra vida,
alguns pra morte
que não está vaticinado
pela sorte
que exista lógica na fila,
nem espere 
“os mais velhos, por favor,
um passo à frente.”
Sobrará algum
pra tolerar a gente
nas frias noites
onde espreita a foice
na mão do nosso 
último transporte?

[elza fraga]

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

DESGOSTO

[Postado em 23 de novembro de 2013 no facebook e no tumblr]


Não tenho medo da morte
não
eu tenho é raiva,

tem mês
que ela faz colheita
muito farta

pro meu gosto.

[elza fraga]


[que acabe logo novembro 
que venha dezembro 
sorrindo, 
se abrindo
e espalhando vida nova]

DEFINITIVO



Sabes o que mais me desarvora?

É saber que
um dia

[em alguma hora
toda ficha cai]

terás tanta necessidade 
[como agora tenho eu de ti]

de me ouvir,

e aí,
provavelmente,

eu não mais 
esteja 
por aqui. 

[elza fraga]

TEM MAIS


Se fosse só a lua,
se fosse só a rua,
se fosse só essa tristeza
do vazio
nas calçadas

se fosse só o copo meio cheio
se fosse só a dor que entra no meio
do peito
e faz morada

se fosse só a danada da solidão

eu até que aguentava…

[elza fraga]