QUEM VEM COMIGO
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
INVISÍVEL PRISÃO
E o pássaro perdeu a vida
preso,
morreu seu canto,
caiu-lhe as penas
e nem chorou
- nada sabia de pranto -
abateu-se indefeso.
Teve pena de si
deu a morte como certa.
Esqueceu
por todo tempo
de olhar a porta da gaiola
aberta
[elza fraga]
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
RES-POSTANDO
(Respondendo aos que patentearam suas certezas)
Permita-me,
caro amigo,
a opinião
mesmo que esteja
errando no pitaco.
Penso diferente,
sou eloquente
e falo
quando certo seria
o calo,
mas como cada um sabe
onde o seu aperta
descruza as mãos
da minha garganta
pro meu berro ecoar inteiro.
Como todo bom brasileiro
me estico
nas magias e artimanhas
pra chegar inteiro
no fim do mês
quando o salário,
salafrário,
já partiu
pra fonte que o pariu.
Sobrevivência
aprendi fora da escola,
e sem direito a cola,
então muda a sua certeza
pro andar de cima
e me deixa,
por delicadeza,
me virar nos trinta
ou virar a mesa.
[elza fraga]
Permita-me,
caro amigo,
a opinião
mesmo que esteja
errando no pitaco.
Penso diferente,
sou eloquente
e falo
quando certo seria
o calo,
mas como cada um sabe
onde o seu aperta
descruza as mãos
da minha garganta
pro meu berro ecoar inteiro.
Como todo bom brasileiro
me estico
nas magias e artimanhas
pra chegar inteiro
no fim do mês
quando o salário,
salafrário,
já partiu
pra fonte que o pariu.
Sobrevivência
aprendi fora da escola,
e sem direito a cola,
então muda a sua certeza
pro andar de cima
e me deixa,
por delicadeza,
me virar nos trinta
ou virar a mesa.
[elza fraga]
sábado, 1 de fevereiro de 2014
COMUNICADO
Quando ficar bem velhinha
- que os anos me pesem pouco -
não escutarei os netos
me farei de ouvidos moucos,
usarei chapéu lilás
de abas escancaradas,
flor na gola da camisa,
pisarei com a sandália
na barra da saia rendada
alvejada de branquinha...
E em licença poética
flertarei com o motorista,
com o porteiro,
ascensorista,
e quem mais me der na telha...
E mesmo que chegue aos cem anos
Deus me livre de ser velha!
[elza fraga]
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
MINTO PORQUE TE AMO
Minto porque te amo
e verdade dói como facada
na jugular.
Minto porque a realidade
é feia demais,
ninguém aguentaria
sem anestesia.
Minto não só porque
analgesia
e protege,
é porque teu coração
fraco,
rapaz,
não suportaria
minha história pregressa.
Minto porque a mentira
que possuo
é leve como a brisa calma,
e a verdade
ah, essa pesa e inquieta
até minha alma
que é feita
de couro curtido
do dragão
mascote de Átila,
e é sombria
como noite fria sem coberta.
E minto
até o fim
pra te proteger de mim.
[elza fraga]
sábado, 11 de janeiro de 2014
...E SE?
E se eu conseguisse você
numa tacada de mestre?
Remédio
em amostra grátis?
Brinde de supermercado,
vitrine exposta
quase a preço de custo?
Ah... O susto
não me valeria
a mercadoria.
A facilidade mataria
a vontade
de radicalizar
e canibalizar
os seus despojos.
Só o que dói fundo assim
[o que machuca até o osso]
como
esse seu ar de desgosto
e a sua apatia
quando me vê
em plena correria
procurando o seu afago,
balançando o rabo,
e ganindo de alegria
atrás da coçadinha
no pescoço
é que faz valer o jogo.
O que dá prazer e gozo
é a caçada
quando se tem a caça rara
e arisca.
Arrisca
que me venha inteiro
e eu,
num ato
de puro masoquismo,
empurre o que poderia
ser
pro fundo do abismo
dessa existência
enxabida
e transfira tudo
pra próxima vida?
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
CONSERTANDO Á-VIDA
Se o tempo não fosse tão cretino,
mais consciente
e nem tão menino
mimado
e me deixasse apagar
com borracha escolar
algumas rasuras
acertaria fatos.
Amaria menos
perdoaria menos ainda
porque quando a vida enfim
virar a obrigatória
esquina
só ficará na lembrança
do desafeto
minha postura
como pura covardia
o meu perdão
como acintoso gesto
minha doçura
como mentirosa
e meus versos
desconsiderados
por qualidade
duvidosa.
[elza fraga]
DECISÃO
Decidi
se partir mais um amigo
pra terra
lá dos confins
onde meu olho não alcança
pra terra
lá dos confins
onde meu olho não alcança
faço minhas malas
teço minhas tranças
pego o trem
destino fim
teço minhas tranças
pego o trem
destino fim
e ninguém mais
me alcança
pra dizer palavras de conforto
que não me confortam
me alcança
pra dizer palavras de conforto
que não me confortam
me prefiro morta
a doer assim.
a doer assim.
[elza fraga]
domingo, 22 de dezembro de 2013
CONSOLAÇÃO ÀS AVESSAS
Você se foi
tão antes de mim,
só pra me dar
tão antes de mim,
só pra me dar
o desprazer
de dizer
de dizer
[fitando a estrela em que habita
- e o espelho]
- e o espelho]
olha, menino,
o que a vida faz
com quem insiste
em viver
o que a vida faz
com quem insiste
em viver
demais.
[elza fraga]
CONSIDERAÇÕES DE UM ÚLTIMO NATAL
Quem quiser ter filhos
por perto,
por perto,
no entorno
do seu inverno
pra adoçar
a viagem
da ida
a viagem
da ida
- sem retorno -
seja esperto,
seja forte,
compre a briga
compre a briga
e prepare o ventre
pois uns se perde
ainda na barriga
outros pra vida,
alguns pra morte
ainda na barriga
outros pra vida,
alguns pra morte
que não está vaticinado
pela sorte
que exista lógica na fila,
pela sorte
que exista lógica na fila,
nem espere
“os mais velhos, por favor,
um passo à frente.”
“os mais velhos, por favor,
um passo à frente.”
Sobrará algum
pra tolerar a gente
nas frias noites
onde espreita a foice
na mão do nosso
último transporte?
pra tolerar a gente
nas frias noites
onde espreita a foice
na mão do nosso
último transporte?
[elza fraga]
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
DESGOSTO
[Postado em 23 de novembro de 2013 no facebook e no tumblr]
Não tenho medo da morte
não
eu tenho é raiva,
tem mês
que ela faz colheita
muito farta
pro meu gosto.
[elza fraga]
[que acabe logo novembro
que venha dezembro
sorrindo,
se abrindo
e espalhando vida nova]
DEFINITIVO
Sabes o que mais me desarvora?
É saber que
um dia
[em alguma hora
toda ficha cai]
terás tanta necessidade
[como agora tenho eu de ti]
de me ouvir,
e aí,
provavelmente,
eu não mais
esteja
por aqui.
[elza fraga]
TEM MAIS
Se fosse só a lua,
se fosse só a rua,
se fosse só essa tristeza
do vazio
nas calçadas
se fosse só o copo meio cheio
se fosse só a dor que entra no meio
do peito
e faz morada
se fosse só a danada da solidão
eu até que aguentava…
[elza fraga]
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
GOTA A GOTA
Pingou vida
na colher
engoliu o que deu pra descer
era amargo demais
o remédio incerto
deitou,
esperou pela paz,
o efeito não veio
- nem colateral -
levantou,
desistiu,
decidiu
fugir desse vício do tédio,
morrer ainda
era o melhor remédio.
[elza fraga]
domingo, 29 de setembro de 2013
DESCENDO O PANO
Se rugas sulcam a face
e os olhos já nem brilham
tanto
eu só culpo o pranto
por tanta vida fria
escorrendo
na coxia,
deveras não foi
o canto
a causa do estrago
pois esse foi amparo
nas noites vazias...
Agora,
quase na hora
de sair do palco,
me pego perguntando
se a alma vai vazia
ou leva bagagem
de terceira classe?
Imagem : Formatação Cida Fraga.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
O POEMA IMPERFEITO
Que a minha verdade
não atrapalhe o caminho da sua
que a rua nem tenha esquinas
pra não corrermos o risco
do esbarrão
na quina do fim do mundo,
que a minha verdade se cale
fundo
quieta
porque poeta
não pode amar poeta
misturar imperfeitos
complexos,
poeta só tem um direito
garantido por lei e estatuto:
poetar até perder as asas
minguar por expelir mais palavras
que as consumidas
e saber que o poema perfeito
é aquele
- exato -
que nos tira a vida!
[elza fraga]
Imagem tirada da internet como livre.
Se alguém souber autoria, entre em contato, por favor.
...
IN-SÍNTESE
Quero a síntese
do abrigo pequetito
para resguardar
minhas palavras
- mas não consigo! -
Promiscuamente
indecente
em intimidades não permitidas,
prolixa,
abuso dos substantivos
comuns e abstratos,
dos verbos,
dos adjetivos,
dos rótulos imaginários
- cometo até pleonasmos -
me rasgo
em versos estendidos
subjetivos,
na busca insana
- que não me contempla -
do poema objetivo.
[elza fraga]
...
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
APOSENTADORIA DE POETA
Se tristeza pingasse
da poesia
como pinga do olho
acabaria a magia
do poema
- e todos os poetas
morreriam -
Pena,
a minha começou
a sangrar dor
e se findou.
[elza fraga]
MUDANÇA DE RUMO
Enfim ele veio,
como um sopro de vento,
uma luz
inesperada
rasgando o firmamento
- tentando segurar o tempo -
uma estrela
no meio da manhã,
um milagre
uma promessa cumprida,
uma fita
solta no cabelo,
um sorriso de canto de boca
uma página inteira
de um livro
perdido,
um aviso
de que é permito sonhar
nesse canteiro
só não pise nos sonhos alheios.
Enfim ele veio,
trouxe sol
terras distantes
coração de amante
e abraços
de bagagem
e me fez
por fim
entender a partida
e começar a viagem
só de ida
pra fora
de mim...
nunca mais
retornarei
a ser eu mesma...
[poema de elza fraga
Com imagem de página do livro "Para comover borboletas", do poeta limoeirense Kelson Oliveira]
SEM SINAIS VITAIS
[...mas lúcida e orientada]
Reaja,
lute pela vida,
respire,
_eu tenho medo.
Plante,
colha, coma
se dignifique,
_eu tenho medo
Acorde
o sol alto lá fora
vivifica,
dá substância,
_eu tenho medo.
E de tanto ouvir
de muitos
decidi
ainda é cedo demais
pra reagir,
enfrentar
o passo a passo
que desenha vida
sair
da letargia...
Me deixem aqui
- eu e a covardia -
daqui pra frente
só quero
dormir...
[elza fraga
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