QUEM VEM COMIGO

domingo, 8 de abril de 2012

OBSTINAÇÃO




Cortei fundo

sangrei na veia
escorri no dedo 
todo o estupor

nem senti
a dor
e o medo

da desgraça

bebi a vida
e quebrei a taça.

[elza fraga]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

AO FUGITIVO



Era meu sol
e era minha sombra
meu aconchego
e minha solidão
 
meu desespero
e meu contentamento
repulsa e atração
vertendo o tempo

Era a parceria
aquecendo noites frias
e encalorados dias
atravessando a alma

Era a calma
e o assombramento.

A segurança e o medo
o remédio e o veneno

E mesmo assim
ainda te queria
[e quero]
aqui dentro

deste inquieto ninho
que é meu peito
tão desfeito
de dignidade

e num sussurro de dor
baixinho 'inda te peço:

Entra de novo
fica a vontade!

[elza fraga]

sexta-feira, 30 de março de 2012

INCONSCIÊNCIA




A minha alma partida
foi buscar o seu lugar
cada pedaço p'rum lado.
Metade se acomodou
nos sonhos
e enlouqueceu

se achou um passarinho
nunca mais saiu do ninho.

A outra metade
perdida
não achou mais o caminho

essa metade sou eu
vagando esmolambada

sem consciência
da estrada
girando em volta do nada
procurando
pião torto

a metade que perdeu.

[elza fraga]

Fonte da imagem: http://alemdaterra.blog.terra.com.br/

.

segunda-feira, 26 de março de 2012

ACERTOS DE VIDA


Tantas vezes

renasci
num novo quarto

que nem sei 
ao certo
se sou eu
que estou aqui
sobrevivente
de tanto parto

Ou se morri
e ainda

não descobri.

[elza fraga]

EU SEI DE DEUS


[Você está girando a 1.675 km por hora, sabia?]


'Sei' de Deus

e isso
é mais que acreditar.
Não há nenhuma negação
em mim

e coloco de joelhos
minha alma em oração
agradecendo,
a maioria
com poesia.

Não existe hora certa para prece
e nem lugar.

É só lembrar que nos equilibramos
numa crosta de Terra
que ainda gira
todo o tempo
pra impossibilitar mais
nossos passos
e nem notamos
que não há nada para agarrar
senão o vento

pra reconhecer a maravilha
do milagre da vida !

Se alguém acha isso normal
e me vem com teorias mil
lamento informar
conheço todas,
nem precisa gastar
o seu latim comigo,
amigo

Eu continuo firme
por mais provas doídas que enfrente
Nada vai arrancar
a semente que Cristo plantou
fundo no meu coração
com o Seu Amor

E se Deus não tem internet,
nem tampouco Jesus

É porque não precisam disso
pois tem seguidores fiéis
que fazem este papel:

O de espalhar na rede
a nossa sede
de Luz!

[elza fraga]

DESNUDADA



Se eu escrevesse
tudo,
mas tudinho mesmo,
que vara minha cabeça
pelas madrugadas
quando só

com a insônia me comendo
a mente
num banquete insano
sem sentir nem
dó

Não sobraria uma só pessoa
que
ao cruzar comigo
raiado o dia

meio constrangida

não atravessasse a rua

sabendo direitinho como sou
de alma nua.

[elza fraga]

SEM ESCOLHA




A rua por onde anda
minha imaginação
em desenhos elaboradamente
simétricos 
é calçada de violetas
olho fixo no chão
pra não feri-las
e abro mão

de apreciar as borboletas

[elza fraga]

MEU ACALANTO É SEU



[Fica bem, somos passageiros descendo
em estações e horários diferentes]

Se eu tivesse a palavra certa
Se eu tivesse a varinha mágica 
Se eu tivesse o remédio justo
Se eu tivesse ombros andantes
consolo constante
que voasse
longas distâncias
pra deitar sua cabeça
em acalanto...

Mas só tenho a mente viajante
o meu amor incondicional
fraterno, puro,
o coração solidário ao seu
que lhe diz
Segura minha mão,
mesmo virtual
vem pro sol de novo
sinta a vida em ação
se afasta do escuro

As dores,
estas, meu amigo,
um dia

passarão!

[elza fraga]

QUEDA LIVRE



Tal e qual
o colibri
no seu bailado
inusitado

pairo no ar
por um leve segundo

sem asas pra bater
mergulho

sem cordas
pra me recolher

me conformo
no fundo

do mundo.

[elza fraga]

DESMASCARADA



Caiu a última máscara da face
e pude me ver, friamente, a nu,
sem nenhum embace

Foi como se me descamasse
casca por casca
e sobrasse
o miolo informe

alguma coisa
dentro
enfim
grita
-Conforme

o que está fora
grita
-Disforme

Enquanto os dois lados
se riem

de mim.

[elza fraga]

Foto que ilustra o poema: Leigh Bowery(1961-1994)
Presença marcante dos anos 80, designer de moda, promovia a noite londrina, foi proprietário do famoso clube noturno Taboo. Artista performático e cantor.

E NEM ERA PRIMAVERA



Nas bordas
da minha alma
debruçou-se
em algazarra
 
o canto
do bem-te-vi

e eu senti
que dentro dela
já havia chegado

da primavera
o vento

fora do tempo.

[elza fraga]

Foto que ilustra: Primavera de Taro Semba, 1960

ABDUZIDA



Como saber
quem é você
do que
é capaz
 do que zomba
esta cova
do seu queixo?


Mesmo assim
corri atrás

imantada

e nunca mais
me achei
 na estrada

Acredito que virei semente
plantada
dentro
do seu peito

desse seu desconhecido
jeito

mas nada ficou
mais perfeito

como morada.

[elza fraga]

POSSESSÃO




Mesmo arrastando
os meus rastros
pesando na corcunda
o tempo vil
que corre
pra desesperançar
meus passos
querendo me desentocar
deste covil

pois só assim
sem abrigo,
sem nada
a esconder a cara
sou presa fácil
ao fim.

Eu não desisto
e jogo o laço
e enlaço a vida
e a prendo a mim

[elza fraga]

PLANETA CEGO





Quem se importa com a baleia
que encalhou na praia
e ficou ali em agonia?

...
Quem se importa com o cão
arrastado por gente vazia
até a morte?

Quem se importa com a sorte
dos sem pão
dos sem teto
da desdita?

Quem se importa
com o choro da Terra
impotente
dolorida
encolhida

que nada pode
contra o coração
duro
do homem?

Quem se importa
se há fome
dor e desespero
poluição e medo?

Quem se importa
em fechar feridas
doar amor

salvar a vida

abrindo a própria
porta
escancarando a alma
criando calma?

Quem se importa?

[elza fraga]

domingo, 25 de março de 2012

POR QUE?




Melancolia
correndo na veia
enquanto o sangue
escorre
denso
em poços imensos

A lua apressada
crescendo
pra ficar cheia
e esta dor danada
nascida do atrito
do tempo no vento.

E a pergunta
parida num grito
do medo
de nunca mais vê-las:

Por que me roubaram as estrelas?

[elza fraga]

DESGARRADA




Decidi
só vou ouvir
a voz
do próprio coração
e seguirei a risca
a intuição.

Ficarei surda
aos que mentem
bajulam
trapaceiam
se acham com a razão

puxam os nossos tapetes
e se riem
ao nos ver nariz no chão.

Ficarei muda
aos que se estendem
em maledicências
falando
na ausência
o que calam na presença.

Não mais seguidora do rebanho!

Sou a perdida que ficou atrás
do bando
cada vez mais longe

E nem me importo
se acham anormal
estranho

Sai da fila
dos seres humanos.

[elza fraga]
...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

MIMO DE AMIGO



Mimo de amigo

 Este selo veio de presente do blog TÁVOLA DE ESTRELAS do amigo JouElam E. Dallavecchia. Agradeço e retribuo com um enorme abraço de Luz.
http://pt-br.facebook.com/jorgeedani

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

DERROCADA




Sabe aquela calçada
onde sentada eu ficava
olhar perdido na luz
dum infinito de estrelas
que cavalgavam a estrada
pendurada no espaço?

Ainda estou aqui sentada
mas com os olhos na calçada,
pois descobri
que só aqui, 
bem baixo,

é que te acho.

(elza fraga)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O DIA EM QUE A POESIA PARTIU




Tem vezes que a poesia foge
vai morar em outra freguesia

e o poeta fica inanimado
como quem morre,
como a quem falta
o pão de cada dia.

Um dia a poesia parte
some sem dizer motivo
e leva junto
o sorriso da cara
leva os sonhos
doces amigos das horas vazias
quando as madrugadas esfriadas
colocavam a pena
nas mãos enregeladas
do poeta.

E aí é como se fora
festa acabada,
velório, luto,
saudades extremadas
morte do vate...

Quando a inspiração se vai
a poesia senta na calçada
queda calada
e o poeta mudo, 
fica cego,

tateia e não acha
---------------------------------------- 
se morre
se mata!


(Elza Fraga)

NÃO TEM GENTE!





(Da série verdades que só eu sei)


Quem morou
dentro
deste peito
deu um jeito
nas tralhas
e partiu

só ficou a casca
olhando pro vazio
perscrutando 
o fim

Não deixou link
pra correspondência
desculpe a ausência

de mim.

(Elza Fraga)