QUEM VEM COMIGO

segunda-feira, 24 de maio de 2010

MOTIM

Meu universo é inverso
vive de ponta cabeça
por mais que eu endireite
ele a noite
aproveita
a hora em que adormeço
pra fazer malcriação

e se vira do avesso
e põe o pé na cabeça
e a cabeça no chão

universo que não deixa
nem os meus versos direitos
quebra a rima
parte ao meio

Um dia
imito o seus feitos
com o jeito que Deus me fez
amarro ele nas pontas

e acerto as nossas contas

(Elza Fraga)

ALQUIMIA DO FRACASSO

E lá vou eu
de coração
na mão

tentando a transformação

fazer da matéria
uma estrela

de qualquer grandeza

ouso voar,
meio zonza,

me embolo toda
nos raios azuis,
distorço
o feixe de luz

e fico,
extática,

em oferenda.

Mas é difícil
o sangue estancar
quando

ainda madruga

e a gente
se espraia no ar,
meio fuga,

meio prenda.


(Elza Fraga)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

PROCURA-SE MÃE QUE SUMIU


Foto devidamente roubada de orkut da irmã, rsrs.



Eu nunca soube
ao certo
quantos éramos.

Só lembro de muito barulho,
da algazarra,
das risadas permeadas

de coisas bobas
[hoje morando
nas  lembranças]

antes engraçadas
por estarmos todos
crianças.

E  no meio
desta gritaria

-gigantesca
a mãe
que tudo sabia

num afã
de dar conta
de cada cria

Ela acreditava
que podia,
talvez  por isso
desse tão certo

com ela.

Mas o tempo,
inimigo implacável,
tirou a dona da roda
do nosso meio

e qual pintos assustados
espalhados
por todo o canto
nos deixou atarantados
e sem rumo

Até hoje sem prumo
procuro
aquela bruxa fada

que remexia
o tacho
e abaixava o nosso facho
com seu feitiço certeiro

e não acho.

(Elza Fraga)
.

terça-feira, 4 de maio de 2010

INQUIETUDE


Desenho de Jorge Luis Borges sobre o tango

Botei o vestido
de domingo
desbotado
os sapatos
tinindo de apertado

com salto sete
para passo lento

cabelo solto
ao vento
batom vermelho
morango

e fui procurar parceiro
pra dançar um tango

que isso é o tudo
que aguento

por enquanto

(Elza Fraga)

sábado, 1 de maio de 2010

DUO

TRAMPO

Bondade sua
ser tão generoso,
nem precisava tanto,

só o sorriso no seu rosto
já paga o trampo!


PEÃO DE OBRA

Sentou no saco de cimento,
abriu a marmita
cheirou
e decidiu,

hoje ia mandar
a patroa

pra dona
que a pariu

(Elza Fraga)

sábado, 24 de abril de 2010

RECEITA PRA ENGANAR O TEMPO

O tempo zombeteiro
pega a gente
leva na torrente.

Brinca de morta
que ele sai
da sua porta!

(Elza Fraga)

terça-feira, 20 de abril de 2010

PROFISSIONALMENTE

Não contratem
parentes
pra chorar
a minha morte

molhando meu coração
e meu caixão
sem nenhuma emoção

apenas obrigação
indecente

chamem as carpideiras

elas entendem bem melhor
desta função


(Elza Fraga)



terça-feira, 6 de abril de 2010

SÓ O QUE BASTA



Eu

mais um cachorro
triste
gemente

mais um apartamento
envolvente
[prisão quente]
me aranhando
as suas teias

mais o sangue
dolorindo
as veias
espremidas
tentando sorver
vida

mais um livro
trambolho
letras embaralhadas
no muco do olho
páginas ao léu

mais uma janela
que
aberta
dá direito
ao céu

Essa é a minha
paz
a minha
ilha

estrelas completam
a família

(Elza Fraga)

terça-feira, 9 de março de 2010

ENSAIO DE DESPEDIDA

(É apenas um ensaio, quem sabe daqui a cem anos escreva um outro melhor, rs?
Serve apenas para explicar minha ausência e para matar, um pouquinho que seja,
esta vontade enorme de poder estar inteira, novamente, na net)

.
Aos que agradei
e que- de algum jeito-
me amaram,
aos que não me suportaram,
aos afetos, aos amados,
aos desafetos confessos,
aos partidos, aos ficantes,
aos que abandonaram o barco
por fadiga,
no instante exato
do apito de partida,
aos que deixaram  melhores
[ou piores]
os momentos voantes
da minha vida.
Aos passantes, aos solidários,
aos falsos amigos, aos de verdade,
aos reais, aos virtuais,
aos que se foram
sem sequer terem tentado
atingir meu coração,
aos que conseguiram,
aos que me leram a alma,
aos que me tiraram o prumo
e a calma,
aos que espremeram meus olhos
até cair o pranto,
aos que secaram a face dolorida...
Aos que persistiram
e acompanharam
até o fim
Deixo a todos, como herança,
uma lasca enorme

de mim.

(Elza Fraga)

sábado, 24 de outubro de 2009

CANÇÃO DA MENINA TRISTE

 ARTE DIGITAL : FATIMA QUEIROZ
.
Era só uma menina
tinha a pele delicada
[tão linda tão linda]
um rosto
bem posto
sem choro
ou desgosto
sem bem e sem mal

a menina tinha um olho
de uma cor especial
era um olho tão bonito
era um olho abissal
[era verde era verde]
como o prado e o quintal

era um olho de menina
enfeitado de cristal

O cabelo da menina
era a luz do sol nascente
[era belo era belo]
amarelo e obediente

aceitava o pente fino
aceitava o pente quente
aceitava qualquer pente

A menina era tão clara
como a lua já no meio
do céu lindo
do céu pronto
das estrelas de permeio

era só a cor de leite
misturada com azeite
escorreguenta e manhosa
branda como a branca
rosa


A menina se encantou
pelo principe da esquina
e fugiu no seu cavalo
como fogem as meninas
que esta era a sua sina
[e este foi o seu mal feito]

Hoje ela só desencanta
corre pra longe da dança
do trabalho, corredeira,
fraldas, filhos, mamadeira

E a menina tão princesa
virou mãe
tão pequenina
que ninguém sabe
entre todos
quem é filho,
quem é sina,
quem é menino ou menina

Nunca mais a brincadeira,
o olho da cor do mar
o sal grudado no corpo

só susto do despertar
e ver que agora é a sério
acabou a brincadeira

e a menina tão bonita
ficou velha
de idade
ficou triste
de maldade
de repente

ficou feia
para sempre!

(Elza Fraga)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

SÓ--FADA

.
Era fada
linda, leve,
má e mágica.

Só uma fada.

Fluida
fugidia
escorregava

condão preso no cordão

arrastou
por todas as calçadas
meu coração
acorrentado pela mão

esmigalhou, sangrou
ralou nas pedras
como se rala
o queijo parmesão

me fez comida
bebida
me fez restos

e se hoje eu não presto
mais
pra nada

cobrem da fada!

(Elza Fraga)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

UMA PEQUENA PARADA

Estarei mais de um mes fora da net.
Volto no final de outubro. 
Fiquem na luz. Bitokitas.



sábado, 12 de setembro de 2009

AI QUEM ME DERA

.Quem me dera ser poeta
cantar o feio da vida
e transformar em beleza

proeza

Quem me dera ser princesa
entrar em conto de fada
e ser feliz para sempre

demente

Quem me dera ser presente
atado a laço de fita
deslumbre de quem me fita

bonita

Quem me dera ser poema
escrito as pressas
sem pena
rabiscado num caderno
e assinado

'ausente'

Quem me dera ser um nada
postado a margem da estrada
correndo a envelhecer

pra não querer ser o mundo

Quem me dera
não me ser

(Elza Fraga)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

MÃOS CHEIAS DE DEPOIS

.
Não se goza o momento
ele passa

nem a vida
ela voa

nem os homens
eles partem

e deixam a gente
com olhar ausente
perdido
estendido pro nunca

com a mão cheia
de vazio
de gozo que poderia
e não foi

 de depois

(Elza Fraga)

sábado, 29 de agosto de 2009

CON-FUNDIDA

...
Perdeu a hora
a honra
a noção do perigo

E como diz o antigo
[e
bem mais sábio]
deitado
ao lado

'botou as perninhas
entre o rabo'

ou seria a-o contrário?

(Elza Fraga)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

'INDA AGORINHA ERA EU

.
Alguém me roubou
a casca
me tomou,
me dissolveu,
abduziu, induziu,
me transformou
me perdeu

'Inda agorinha era eu

Minha palavra não fala
quase tudo escureceu
a boca muda, fechada,
parece que enlouqueceu
de silêncio
de espreitada
de nada que aconteceu

'Inda agorinha era eu

O ar some na garganta
e fica a fome e o frio
dos que só vagam vazios
sem bagagem
hospedagem
sem documento ou registro
nas noites dos indormidos

'Inda agorinha era eu

O grito parou na porta
nem fugiu
nem se escondeu
escorregou pela lingua
mas morreu
sem ser parido

E agora é tudo breu
onde agorinha era eu!

(Elza Fraga)

domingo, 9 de agosto de 2009

ME VEJA

.
Por mais que eu me abra
me escancare e mostre
você enxerga em mim
o que não quero ser
e que talvez nem seja

e grito lá do fundo
"Por favor me veja"

Se fito o espelho
ele me mostra a outra,
a louca
que há no fundo
do meu mar calmo e azul

Só você me vê
pássaro migrante
indo para o sul

enquanto eu me sei
voltada eternamente
para o norte
olhando o horizonte

esperando a morte

(Elza Fraga)

VIDA

FORMATAÇÃO DE REGINA XAVIER
IN POEMA DE ELZA FRAGA


ENQUANTO CANTO

.
Crescem no chão
ervas daninhas
e a terra sobe
em montes

enquanto canto.

Descem raios
em diagonal
e a chuva molha
cabeças pensantes
e as nem tanto

enquanto canto.

No entanto
tudo normal no front
só a fronte que me arde
em febril
agitação
queima a mão
com que busco
o conforto

e tosco o mundo
continua a sua gira
pião
inconsequente

tonteia o olho que acompanha
o rodopio

Olho pro fundo
e vejo a verdade

o fundo do mundo
é vazio!

(Elza Fraga)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

QUANDO PARTIR



(Vou passar um tempinho entrando menos na net, mas tentarei vir
sempre que puder, não estou me afastando 'ad eternun', estou rareando
as entradas por probleminhas cotidianos.
Mas deixo uma Elza, em ótica pessoal, pra quem se interessar em saber mais
um cadinho da contadora de causos.)


Não sei porque mas a ficha caiu.
Cheguei a conclusão, hoje, que deveria me apresentar.
Algo assim como Elza Fraga por Elza Fraga.
Cansa saber que nada mais somos além de retalhos e
montagens alheias, feitas por quem nunca morou na nossa
alma inquieta.
[Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é (Caetano Veloso)]

Se eu partir deste planetinha num repente, como é praxe nas partidas,
porque nunca chega o bilhete do além, a reserva da hospedagem,
o horário de embarque e da chegada, com tempo suficiente pra
se trocar a roupa, passar um lápis no olho, retocar perfume e baton;
não quero os detratores fazendo jogo de cena, ganhos políticos,
com choradeira e fungos em cima do meu cadáver.
Nem morta quero sair desta pra melhor cheia de vírus e bactérias fungadas.
Respeito é bom e eu gosto, até na eternidade.

E também não quero aquelas histórinhas inventadas, ou a visão particular
que cada um tem de mim.
Problema do dono de cada opinião.
Elas não me interessaram em vida, não as quero na morte.
Fique cada um com a sua, no silêncio
(que é o estado mais sábio da matéria) e boa sorte!
A visão pertence ao dono dela.
Nada de fazer folclore da minha vidinha,
tão comum e ao mesmo tempo tão turbulenta.

Porque se alguém foi meu amigo o suficiente pra se interessar por mim,
quis saber o que sinto ou como sou, perguntou com honestidade e
cartas na mesa, como eu gosto e sou.
Não ficou perguntando a gregos e troianos, não acreditou nas invencionices
oralmente fantasiosas.
Não juntou pedaços e informações de fontes obscuras, ou mal informadas.
Não deu crédito a disse me disse ou maledicência.
Apenas me encontrou, olhou no meu olho e capturou minha alma.
E estes com certeza foram poucos.
O que me leva a descrer da raça (gente) homem, ser pensante(?)
na maioria das vezes.
A sorte é que existe a exceção, como em toda boa regra,
ainda tem Gente, Homem, Ser Pensante, nas maiúsculas.

E toda vez que se escutar uma história a meu respeito, seja pro bem
ou pro mal. Elogiosa ou detratora. Feliz ou infeliz. Que se pare e pense:

Se eu, moradora da própria casca, muitas vezes desconheço quem
sou realmente. Tenho reações que me assustam pela imprevisibilidade.
Olho no espelho e muitas vezes enxergo uma estranha.
Como alguém, que mora do meu lado de fora, pode saber quem sou eu?
Tem coisas que não confesso nem a mim mesma.
Então eu as ignoro, certo?
Isso leva a conclusão de que sou uma ignorante deste ser que mora comigo.
Este único ser que consegue me acompanhar 24 horas do dia.
Em alguns momentos cheio de orgulho, pompa e circunstância,
em outros morrendo de tédio, em outros, ainda menos felizes, doido
pra se livrar da minha sombra.
Ser confuso, em ebulição constante, mudando a cada minuto, em
ladeira de descida, correndo maratona contra o tempo e nadando,
sempre, contra a corrente.
Quem então poderá saber quem sou, se nem eu sei?

E por isso, quando eu partir, não se preocupe com o pouco que fui,
não tente adivinhar nuances, matizes, sentimentos.
Saiba apenas que amei cada criança, bicho, planta que encontrei
na estrada,
e vivi por isso e disso!
E doei todos os sorrisos que tinha.
E contei histórias com o cerne.
E que cada olhar curioso de um serzinho em formação escutando atento
foi meu pagamento, minha moeda.

E assim que quero que falem de mim depois que eu me for:
A Elza era apenas mais uma poeira procurando rolar pra virar,
nem que fosse pequenininha, uma pedrinha.

Que de poeira a pedra já é uma evolução e tanto!

Eu