QUEM VEM COMIGO

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

DESCRÉDITO

Trouxe da infância
a fome de poesia,
a mania
de pouco pano,
o olho grande
na cara macia...

e este descrédito enorme
no ser humano

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

RECEITA PARA CAPTURAR FADAS

.
Deita na mata
uma rosa amarela
um jarro d'água
uma pedra bruta
um galho de cheiro
uma vela
um pau de canela
um monte de folhas
de macela...

E se acautela
por tras da cancela,
de sentinela,
que fada foge
porque toda ela

é donzela
(Elza Fraga)

domingo, 2 de novembro de 2008

PINGADO

.
GEMENTE

Sobrou
casa pra arrumar,
comida por fazer,
cão para cuidar,
flores no jardim
pra enfeitar a aridez
do
ai de mim



FALSOS VETORES

Não me dê flores,
beijos, promessas
falsos vetores
quando eu
...
só quero versos

RETIRADA

Recolheu a palavra,
encolheu a figura,
engoliu a vaidade
escondeu a verdade
colocou a viola
no saco

jamais imaginara
doesse tanto
um pé bem dado
no atras

E com vergonha do fracasso
e do não, claro e redondo,
Partiu pro nunca mais


REDENÇÃO

Toda mulher
faz poesia
com o corpo
ou com a palavra...

cada gesto afoito
cada marca no rosto
ou é poema
ou coito

Só a poesia
salva.


REMISSÃO

Cabeça baixa
ela rezava
e repetia
a Ave Maria.

Voltava pra casa
e se trancava
com o mulato
e o couro comia

E Deus perdoava
todos os dias!

(Elza Fraga)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

AUTENTICADA

.
Esta cara estampada
como foto
é a minha, única,
marca dos meus anos,
passados, bem vividos,
pura de artifícios...
Porque eu sou isso
que exibo
e mostro,
sem esconderijos secretos,
sem artimanhas escusas,
sem esconder coisas sujas,
sem inventar biografia, foto
e fatos

Autêntica como a assinatura...
Limpa como água de regato

(Elza Fraga)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

MOSTRUÁRIO

RELAXA

Para com isso moça
a vida é poça
que se pula
e num segundo

acaba o mundo!
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CORTO?

Ao cortar um poema,
desceu-me
uma tristeza
de ausência
de descriação
garganta abaixo,
olhei os pulsos...
E...

Por que não?!
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ECONÔMICA

Sou de palavras poucas
Falo com o olho,
economizo boca.
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PROCISSÃO DO TEMPO

Que o relógio
bata as horas
nem me apavora
mais
é a função dele...

O que me encafifa
e dá frio
na barriga
é o tempo acompanhar
a procissão
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APRESSAMENTO

Escondo no fio
da navalha
o frio
que a alma cala...
Medo
de desvendar
o segredo
da morte

Ou
Quiçá apressar
a nefanda
tenho fobia
a fila
que não anda

(Elza Fraga)
.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DIA DE MARESIA

.
Tudo é pouco,
todos surdos,
nada vale
o preço justo.

Só este dia,
com este sol e
este sal
grudado nas partes nuas
do seu corpo

traz conforto!

(Elza Fraga)

domingo, 21 de setembro de 2008

BORRALHO

(Histórias pra fazer ter medo)

Dentro de mim moram
uma moleca,uma senhora,
uma dama,uma sapeca
e uma doidivanas andadeira.
Convivem todas
de uma tal maneira
que meu interior é
quase sempre guerra...

Só vem a paz
quando você me desfaz
em borralheira!

(Elza Fraga)

ENIGMA

Um último beijo,
a garrafa vazia
ao pé da cama,
lençóis em desalinho,
sua roupa
espalhada pelo chão,
meu coração sentado
na beiradinha do colchão
fita,
pela vez derradeira,
seu jeito
no torpor do sono
e diz um adeus sem palavras,
só de pranto.

Até quanto de dor
suporta um ser humano?

(Elza Fraga)

GATO NO TELHADO

.
Tem gato no meu
telhado
Ouço o miado
arranhado
de fundo de garganta

Desce menino!
Faz arte
no meu quarto
é mais seguro

eu asseguro!

(Elza Fraga)

TERMINAL

A tristeza
hoje,
impertinente,
me fatiou a alma
para sempre


(Elza Fraga)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

sábado, 13 de setembro de 2008

terça-feira, 9 de setembro de 2008

DISSIMULADA




.
ARTE DE FATIMA QUEIROZ
POEMA DE ELZA FRAGA

MEU ERMITÉRIO

.
O meu céu
é um montão
de pontos cegos,
não nego.
Não há radar
que me previna a queda
ou a colisão.
Sou de leão,
mas tenho a impressão
que trago a lua
em aquário.
Sou forte e fêmea,
mansa e fluida,
desconexa e indiferente,
desconstruída li-te-ral-men-te...
ousada e retirante,
espiada, escondida!

Sou feita de vida
matéria não moldável
a qualquer gosto,
por isto tenho arestas exibidas ...
Como o desgosto que ostento,
linha a linha,
no meu rosto,
as minhas farpas também
caminham nuas...

Mas de todas as incertezas
que me cercam
a única certeza
que me resta
é que este mistério
em que fiz meu ermitério
me vem do fato
de ser apenas tua!

(Elza Fraga)

sábado, 16 de agosto de 2008

SURPRESA!...

Somos todos predadores, numa doida cadeia alimentar.
Nos alimentamos dos que vão enfraquecendo no caminho
e, assim, vamos matando, a cada passo, mais um pedacinho
da divindade que nos habita!



Numa estranha cadeia alimentar
você, meu predador,
se alimenta
das minhas entranhas
vorazmente!

Rumina cada pedacinho
e depois,
recostado no ninho,
candidamente,
palita os dentes...

O dia há de chegar
em que os papeis se invertam
e vou ser bem mais esperta
do que pensa ou deixa...
Vou começar meu festim pela cabeça
onde esconde seus tolos miolos,
como um tesouro .

E aí não haverá retrocedência.
Só anuência,
submissão, obediência...

Terei o predador domado enfim
dentro de mim,
que sempre fui a presa.

Devo gritar
-Eureka!
ou
-Surpresa?!...

(Elza Fraga

domingo, 10 de agosto de 2008

DIFERENÇAS

.
Poema adaptado para contação de histórias, nele as diferenças fazem o prato da balança oscilar, como um pêndulo maluco que nunca se detem na resposta e peso certo...



Ele morava na cidade.
Ela no campo.
Ele era formado em letras,
miúdas e graúdas.
Ela sonhava
e sua labuta era a roça.
Ele era usuário oficial
da cara feia.
Ela contava causos,
anedotas,
bebia pinga,
e ria de qualquer besteira.
Aos domingos ele ia ao culto,
de terno e gravata,
orar pro Deus só dele.
Ela? Vendia verduras da horta
na feira.
E se passou o tempo...
Um dia,
por estas peças que a vida prega
ou por ironia,
era setembro e era primavera,
seus caminhos se cruzaram...
Se conheceram.
Ele, por orgulho e vaidade,
disse nada,
mas lhe ofereceu uma olhada
de seca pimenteira
e uma flor roubada da roseira.
Ela por ingenuidade e tonteira
enquanto a flor despetalava
se entregava
E murchou no pé a sua vida inteira!
*******************
Até hoje me perguntam
o final desta história,
pois me sabem acompanhante
dos fatos...
E aí? Ele foi morar no campo?
Ela foi para a cidade?
E eu respondo a verdade: Não sei!
Só sei que no lugar em que ela
se entregara
hoje em dia tem uma roseira
onde só nasce flor despetalada...
Nunca,
nunquinha,
deu uma só rosa inteira!
*******************
(Elza Fraga)

sábado, 9 de agosto de 2008

PARTIDA


Meninas e borboletas
(Milton Dacosta)


A vida tem cheiro de bouganvilie florido. A morte, cheiro de sangue, deste mesmo sangue
que nos correu, vital, pelas veias por toda uma existência... Quando este amigo começa a nos passar seu cheiro doce é chegada a hora dos acertos, porque o tempo está expirando...
Quem diz que a morte é visita surpresa ainda não chegou ao seu limiar! A morte traz cheiro de sangue e ventos diferentes que só o padecente sabe e sente...


Quando eu me for
não rasgue a poesia
que saiu da minha mão
porque ela guarda
um muito da minha vida,
pedaços intensos
do meu coração...

E se lhe perguntarem,
afinal,
de que me fui,
responda só isso:

Meu coração não aguentou
tanta mistura
-Beleza com cinismo,
sorriso com maldade.
E sentiu saudade
de uma outra vida,
não vivida,
diferente, iluminada,
se rendeu por fim
indo buscar outras estradas,
--------------------------------------------
além de mim!

...

(Elza Fraga)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

PRECISÃO

Tem vezes que só uma fuga estratégica, para um lugar além do fim do mundo, nos salva a alma... Mas, se for uma solidão a dois fica mais fácil o resgate e, aí, a salvação é certa e para sempre!


O que me irrita
no povo
é esta mania
de viver em bando
como certos animais.
Detesto coletivo
ajuntamento
hipocrisia
vida social.
...
Ai quem me dera
pudesse ter,
nesta terra,
apenas uma tapera
como bem material.
Um moreno dentro dela
destes que gostem
de cheirar cangote
e que suporte
meu mau humor matinal
e esta mania
de ser solitária
de fugir pra dentro,
lá no meu fundo
onde ninguém me alcança...
...
O resto do mundo
gente, etiqueta,
critérios, manual,
me cansa!

(Elza Fraga)