QUEM VEM COMIGO

domingo, 18 de agosto de 2013

ABSOLVIÇÃO




[in nomine Patris]

A partir desse momento
qualquer poesia serve
para apagar 
o sofrimento

e redimir toda a culpa

desconsiderando antecedente.

Julgada totalmente
procedente.

Publique-se
e
cumpra-se.

[elza fraga]

CONSAGRAÇÃO



Quando me pegou a mão,

encostou teu coração
num abraço

e cantou alto
pra me acalentar a alma

- consegui de volta a calma -

Senti o calor que sentia
na infância
quando a mãe cobria
meu corpo magro.

E eu te consagro
amiga

para além da vida

amem!

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

PORTAS FECHADAS


[lembrar não é ver, é sofrer]

Quando partiram
os amigos, o cão,
um e outro conhecido,
rumo ao desconhecido
e fecharam a porta
para além da Terra,
assustei a solidão
com a promessa
de preencher as vagas
em aberto.

Quando voaram
os que dava como certo
no aconchego do ninho,
e também cerraram portas
desse mesmo lado
onde ainda transito
afogada
no grito,

chamei a solidão
para a última conversa:

Se queres ficar, fica,
mas calada,

só não me esqueça
essa porta aberta!

[elza fraga]

PLANO DE VOO



Pra que se ter o coração
preso no laço
de uma única paixão

se o amor
liberta mais
comporta mais

agrega mais.

Cabe mais gente
- livre -
no sentimento
de amar

do que cabe
no ar
do entardecer
aves em formação
de V...

só no abrir mão
- deixar voar -
concretizamos
o ato

da liberdade
de fato!

[elza fraga]

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

ESCONDERIJO



Quando falo
calo muito mais
palavras
que as poucas
rotas
ditas

- emudeço tantas! -

Bendita hora,
que virá,
em que palavras
não mais
se esconderão

no coração
das gargantas...

[elza fraga]

quarta-feira, 31 de julho de 2013

FIQUEI OBRA INACABADA



Autora largou o traço
depois que a tela molhou
regada por tanto mar
que escapou pelas beiradas
do olho
enquanto traçava...

- E me sobrou a certeza -

Não fui eu que inventei
a tristeza,
foi ela que me inventou.

[elza fraga]

MISERABILIDADE É NÃO TER FLOR




Essa é a rosa
- de jardim vizinho -
que brotou
entre os espinhos
da folhagem

que eu de meu
só tenho janelas
e grades

de paisagem.

[elza fraga]

sábado, 27 de julho de 2013

SEI VOAR



Aprendi com um passarinho 
a não permanecer no ninho 
quando desnecessário.

É voar,
olhar de perto e de cima
a beleza das cores,

descer
planar
beijar as flores,

se apaixonar pela mais bela
delas

e sem titubear
subir de novo
rasgar o ar

olvidar o que deixou.

O constante movimento
das asas
é que faz o milagre

do voo

[elza fraga]


estranhaforma

sexta-feira, 26 de julho de 2013

R-EVOLUÇÃO


Para, escuta,
identifica,
o som não é 
o que acredita.

Vira, olha,
mira,
- e corra -
sacou agora?

Permita
te alertar pro fato

é a evolução dos ratos...

[elza fraga]


casadopoemaelzafraga

terça-feira, 23 de julho de 2013

INCLINA-ME




Se fico 
sofro

se parto 
morro

se paro
esbarro
no coro

dos dissimulados.

Que lado
escolho?

[elza fraga]

ESTARRECIDA




Observo
e me espanto,
o desgosto
cala o canto

mas meu 
não gosto 
não muda fatos...

Meus sapatos
rotos
não aguentam
viagem
definitiva

faço cara de paisagem

enquanto em mim
- ainda -

habita vida!

[elza fraga]


Imagem : Mulher e Barco - Salvador Dali

quarta-feira, 10 de julho de 2013

AMPUTAÇÃO



De tanto ver tristeza
fugindo do teu olhar

se perdendo para além do mar,

decidi 
não mais te carregar,

amputo
e faço tuas
minhas asas,

volta para tua
verdadeira casa
no infinito.

Eu fico

- e reaprendo a andar -

tentando equilibrar
aqui do chão

o meu juízo...

[elza fraga]

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Movimento Ativista: MUT-AÇÃO - Elza Fraga

Movimento Ativista: MUT-AÇÃO - Elza Fraga:
Não se ganha a batalha
 com medo,

 não se entra na luta
 sem arma,

 pegue, engatilhe
 e mire bem

 sua palavra...

 O alvo nunca mais será o mesmo...

sexta-feira, 5 de julho de 2013

SÓ A POESIA SALVA



[Por isso escrevo poesia, mesmo ruim dá aquela levitação gostosa, 
alienação ou nóia...ainda acho melhor escrever droga que usar...]

Dia sim
outro também
escapo
do mal
imundo
que anda inundando
o mundo...

Fujo pra poesia
parindo um poema
por dia

- minha tarja preta confessa...

Se bom
se ruim,
não sei
e nem me interessa

só sei que me salvo de mim.

[elza fraga]

quarta-feira, 3 de julho de 2013

ALEGORIA



Quando me encosto 
quero só o enrosco
o aconchego
o cheiro
a textura da pele

o sabor de saber

que tenho
ao alcance das mãos
dos pés
do rosto

o prazer
da companhia

o resto
- venha se vier -

é só alegoria!

[elza fraga,
poeta das minúsculas]

terça-feira, 2 de julho de 2013

Movimento Ativista: poema - Elza Fraga

Movimento Ativista: poema - Elza Fraga:
Quando me for 
quero voltar em flor
que isso de ser gente
dá um trabalho danado

deixa demente

 Elza Fraga

ETERNIDADE



Amor,
sim, 
foi isso mesmo que disse,
com circunstância, pompa
e pieguice,

hoje só quero falar
da sua presença
intensa

em forma de luz,
em forma de anjo,
em forma de amigo,
em forma de complemento,
andando passo a passo
comigo,

porque você talvez não saiba
como me completa o vácuo
deixado pelos anos difíceis,
pela vida dura,
pelas coisas ruins,
que desfilaram
céleres

e continuam assombrando
os meus pensamentos,
quebrando a inventada armadura.

Mas aí chega você
invade a minha alma
por um rápido momento
e canta, e dança, e afaga,
e diz vai passar,
coloca remédio na chaga
e a fecha
com o lacre
da delicadeza

- quase voo de pássaro
sua mão na minha cabeça -

acalma meu pesadelo,
diz pra que eu durma de novo,
e que você sempre estará por perto.

Sempre acredito no que diz...

Desperto
renovadamente feliz
pois sei

que enquanto tiver seu encanto
ao meu lado

eu não acabo.

[elza fraga,
mudando de assunto...]

sexta-feira, 28 de junho de 2013

GRITO





Meu berro
soa manso,

apesar de intenso
é todo interno

fazendo correr
nas veias
o inferno.

Só quem consegue
enxergar
o centro
do que trago

por dentro

consegue ver
o tamanho

do estrago.

[elza fraga]

quinta-feira, 27 de junho de 2013

ALFORRIA


Se escrevesse um poema
dizendo da pena
que tenho da gente

ausentes de alma

apesar da presença
mofando a calma
descascando
a parede do tempo

- pesando o momento -

hora a hora,
dia a dia...

Você entenderia?

[elza fraga]

BREV-IDADE


Parei... Pensei...

"_Por que me preocupar?

A vida é curta demais
pra se tentar

amansar a dita cuja,

fuja, poeta, das armadilhas sujas
e viva apenas tentando equilibrar
o corriqueiro ato
de respirar

e a visão linda das manhãs de sol."

Agora sei,
o resto é braveza e brevidade
o tempo morde,

mas assopra a ferida,

só o exterior tem idade,
o interior já se contenta,
e muito,

em ter vida!

[elza fraga]

SONHOS DESPERTOS


Meus sonhos voaram
- à revelia -
ao encontro
de tantos outros
sonhos

- pequenos pontos -

nas brumas perdidas
da noite fria

pedindo chocolate quente
cama aquecida
e paz pra toda gente

algum dia...

[elza fraga,
voltando em caráter definitivo para o mundo dos sonhos]

domingo, 23 de junho de 2013

MUT-AÇÃO





Não se ganha a batalha
com medo,

não se entra na luta
sem arma,

pegue, engatilhe
e mire bem

sua palavra...

O alvo nunca mais será o mesmo.

[elza fraga]

sábado, 22 de junho de 2013

À DERIVA



Meu barco
desceu a corredeira
e despencou

soçobrei na correnteza

não sei nadar
em águas limpas
quanto mais
em mar
de armadilhas

minha alma clama
por socorro

ou desengasgo
o nó da garganta

ou morro...

[elza fraga]

segunda-feira, 17 de junho de 2013

SONHOS SÃO IMORTAIS



Coloque branco na janela,
no corpo,

na vida

e reze por ela.

Mais triste que a fome,
que a face sofrida,
que as dores
que não se curam,

é a morte dos sonhos
é a morte da crença.

Ninguém pode matar a alma
que se liberta
e vê, afinal
o mal em toda a sua extensão,

mas a fé ainda pode ser maior,
melhor,
mais ampla

- mesmo onde ainda falta o pão -

e faz vencer por fim

quem tem razão!

[elza fraga]

domingo, 19 de maio de 2013

RESGATE



Atravessou o mar
a me buscar
sem medo
das ondas bravias

desaguou
na praia

me fez resgate

encheu
os braços
do quanto
me cabia

eis-me enfim
calmaria

[elza fraga]

sexta-feira, 26 de abril de 2013

CONTANDO TEMPO



Quando me for
que seja noite, por favor,
não me deixe,
Senhor,
perder o por do sol,

o desmair do girassol.

Suavemente,
no meu leito quente,
não nas mãos
de algum indiferente,

num lugar frio
onde todo leito
é igual,

depósito inumano,
indecente,

de gente.

[elza fraga]

FOI BEM ASSIM...


Não foi repentinamente
Não foi por querer,
propositadamente.
Só lembro
que ensandeci.

Acho
que me perdi
e comecei a acumular histórias
a cada passo errado
dentro deste globo louco
que chamam de mundo.

Quando cheguei ao fundo
de mim mesma
e vi tanta sujeira,
não consegui
me equilibrar no imundo

e desliguei todos os fios
que eu via

até afinal nascer a letargia.

Foi bem assim....

[elza fraga]

terça-feira, 16 de abril de 2013

ATALHO


[Tributo a Clarice]


Sensação de estar perdida,
olho pro lado,
ainda vislumbro vida,
menos nítida, mais difusa...

Volto confusa
em busca do atalho.

Acho
endireito o rumo

vejo que a estrada principal
sempre esteve perto

entro quebro a quina
da esquina

e sumo

[elza fraga]

DIVIDIDA



Só o corpo
virou a esquina

passo roto.

A alma
parada no desgosto
espera 

florescer
a primavera

no sorriso fugitivo

do seu rosto.

[elza fraga]

sábado, 6 de abril de 2013

LACERADA


(Escondo o lacerado para que teus olhos não medrem e,
por fim, te apartem de mim...)


Visto-me com retalhos
tecidos
com o fio de vida
esgarçado,

costuro atalhos.

Escondo ombros
e seios 
sob larga echarpe
onde traceja
a marca da ferida
que o sangue 
ainda fareja

só pra que tu
não vejas!

[elza fraga]

MARCA DE NASCENÇA



Só aos poetas foi dada
a loucura contida nas palavras,
com o nascimento

como um dom presenteado pelas fadas. 

Aos outros loucos 
[os que a vida se encarregou 
de transformar aos poucos]

só foi dado o silêncio
e o nada!

[elza fraga]

ASSASSINATO



Esvaziou o peito
do ar que o amor
guardara
por um bom tempo,

sufocou
até perder
a inspira-ação,

matou
por asfixia
o sentimento,

até já,
volto logo,
nem foi dito...

Nunca mais foi visto.

[elza fraga]

MUDANÇA DE ROTA



Preferia ser alto mar,
não água mansa
da costa
batendo na areia,

em bravatas
lambendo rochedos.

Só uma onda
perdida
no meio do oceano,

sem medo,
sem planos,
sem enredo.

Só o ir e vir
constante
beijando o sono
dos navios

espalhando a lua cheia.

[elza fraga]

quinta-feira, 14 de março de 2013

CANTE!



Está triste?
Cante!
Cercada de limites?
Cante!
A porta está trancada?
Cante!
Espinhos na sacada?
cante!

Não lhe prometo menos pranto,
não lhe prometo mais saidas,
não lhe prometo acalanto,
nem lhe prometo flores
margeando a estrada,

mas se cantar bastante
achará sozinha
o caminho 
certo,
sua luz e sina!

Que sempre está tão perto

é só virar a esquina...

[elza fraga]

sexta-feira, 8 de março de 2013

NÓS SOMOS AS SEMENTES DO MUNDO



[Somos as autoras de todo homem que caminha sobre este planeta, missão e arte!]

Honre 
seu nome de mulher,

mantenha 
a dignidade
de uma mente sã.

Não permita
que ditem seu caminho

e se reverencie


seremos para sempre
ninho

semente
do amanhã!

[elza fraga]

segunda-feira, 4 de março de 2013

QUANDO ME CALO



No meu calar
moram todos os vocábulos

verbos,
substantivos,
conjunções,

sujeitos ocultos
adjetivados,

pre-posições...

É no calar
que minha alma
fica nua

e vira sua.

[elza fraga]

QUESTIONAMENTO



E agora?

Nesta hora
que a dor gruda
no cerne

insiste
esparrama

come as entranhas
qual verme 

demora,
demora,

e desiste de ir embora?

[elza fraga]

FINGI-DOR



Enquanto a lua
pousa
numa poça de chuva
barrenta

a gente insone fita
e finge 
que aguenta,

sem temer,

a dor de mais um
amanhecer.

[elza fraga]
...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

VIVER É ATO, MORRER É FATO.



Para morrer
tem que se ter andado
muitos caminhos
voado do ninho
pousado
em abismos profundos
chorado
até afogar alma
e inundar o mundo

ou apenas ouvido
um único canto
de passarinho
num deslumbre
de abrir o olho
vez primeira
pro planeta
e partir num suspiro
fugindo?

Passar devagarinho
feito simplicidade
de rio fingindo
que não sabe
que vai pra corredeira

ou ser cometa
brilhar rapidamente
e explodir em cores
antes que a vida mude
e nos ponha em branco e preto?

Viver demais
faz mal
a saúde... 

[elza fraga]

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CANTIGA PRA LIBERDADE



Canto

como um cão
lobo

o bobo
a pensar que canta.

Não desisto
assim mesmo canto

uivando pra liberdade,

quatro paredes
sufocam coração humano

cantar me faz desumano
em coração e verdade,

avalista
do perigo
do estrago

que pratico
masoquista
nesta prisão

a sós
comigo.

[elza fraga]

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

POR QUE MORREM OS POETAS?


 


[Aos meus valiosos amigos poetas que atravessaram o Portal Mágico apressadamente, ousadamente antes de mim]
 

Não, os poetas não morrem!


Eles mudam a trajetória
passam pros bosques
onde as almas
não dormem
apenas descansam conversas


e aí eles escrevem
poemas


seus melhores
seus maiores


e cada um é elo
da poesia do outro

viram coletivo,
coletânea,

que carregam a tiracolo

nunca mais poema
egoisticamente


solo!


[elza fraga]

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O VELHO ANO ME ESPIA

O ano velho  espia,

e das frestas da ventania
sussurra que ficaria
caso pudesse parar,

me prometeu que viria
saudar o novo chegar
e até ainda agorinha
só vejo seu olho de vento
parado no pensamento
sem uma brisa no ar,

nem sopro,
aragem macia,
nem mesmo a sabedoria
pra receber sorridente
o ano que vai chegar

tão criança inocente
que nem sabe engatinhar.

Ah se eu pudesse voar
e voltar no firmamento
trazendo este ano velhinho
pra ensinar ao menino
a passar mais devagar
sem apressar mais o tempo.

Ah se eu pudesse enredar
a roda do firmamento
e num gesto ousado e lento
fazer  o tempo parar
no primeiro segundinho
deste ano tão novinho

pra nunca mais se acabar
nas curvas do pensamento
levado aos solavancos
pelas esquinas do vento.

Ah se eu pudesse
voltar!

[elza fraga]

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ABANDONOS






Fiquei

encolhida,
des-escolhida,

tão desprovida
de palavras,
de gestos,
de fatos,

parada

enquanto você
virava a esquina
indo

pra sempre

pro nada!

[elza fraga]

APOCALIPSE







[caso acaso se dê o ocaso
e a terra sacuda seus parasitas
viventes do dorso quente]

Algumas notas
de velha canção
dançando
sobre um solo nu,

um coração
batendo
em descompasso
cada vez mais longe,
cada vez mais baixo,
cada vez mais fraco,

meu relógio
em eterno atraso,

só isso
enfim,
foi o tudo
que restou de mim

após o ocaso...

[elza fraga]

Imagem: Foto de Fabio Stachi
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