QUEM VEM COMIGO

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

DESGOSTO

[Postado em 23 de novembro de 2013 no facebook e no tumblr]


Não tenho medo da morte
não
eu tenho é raiva,

tem mês
que ela faz colheita
muito farta

pro meu gosto.

[elza fraga]


[que acabe logo novembro 
que venha dezembro 
sorrindo, 
se abrindo
e espalhando vida nova]

DEFINITIVO



Sabes o que mais me desarvora?

É saber que
um dia

[em alguma hora
toda ficha cai]

terás tanta necessidade 
[como agora tenho eu de ti]

de me ouvir,

e aí,
provavelmente,

eu não mais 
esteja 
por aqui. 

[elza fraga]

TEM MAIS


Se fosse só a lua,
se fosse só a rua,
se fosse só essa tristeza
do vazio
nas calçadas

se fosse só o copo meio cheio
se fosse só a dor que entra no meio
do peito
e faz morada

se fosse só a danada da solidão

eu até que aguentava…

[elza fraga]

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

GOTA A GOTA



Pingou vida 
na colher
engoliu o que deu pra descer

era amargo demais
o remédio incerto

deitou,
esperou pela paz,

o efeito não veio

- nem colateral -

levantou,
desistiu,

decidiu
fugir desse vício do tédio,

morrer ainda
era o melhor remédio.

[elza fraga]

domingo, 29 de setembro de 2013

INCOMPETÊNCIA


Descobri

viver é um equilíbrio
que não consegui...

[elza fraga]


... 

DESCENDO O PANO




Se rugas sulcam a face
e os olhos já nem brilham
tanto

eu só culpo o pranto
por tanta vida fria
escorrendo
na coxia,

deveras não foi
o canto
a causa do estrago

pois esse foi amparo
nas noites vazias...

Agora,
quase na hora
de sair do palco,

me pego perguntando

se a alma vai vazia
ou leva bagagem

de terceira classe?

Imagem : Formatação Cida Fraga.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O POEMA IMPERFEITO



Que a minha verdade
não atrapalhe o caminho da sua

que a rua nem tenha esquinas

pra não corrermos o risco
do esbarrão 
na quina do fim do mundo,

que a minha verdade se cale
fundo
quieta

porque poeta
não pode amar poeta

misturar imperfeitos
complexos,

poeta só tem um direito
garantido por lei e estatuto:

poetar até perder as asas
minguar por expelir mais palavras
que as consumidas

e saber que o poema perfeito
é aquele
- exato -
que nos tira a vida!

[elza fraga]

Imagem tirada da internet como livre.
Se alguém souber autoria, entre em contato, por favor.

...

IN-SÍNTESE


Quero a síntese 
do abrigo pequetito
para resguardar
minhas palavras

- mas não consigo! -

Promiscuamente
indecente
em intimidades não permitidas,
prolixa,
abuso dos substantivos
comuns e abstratos,

dos verbos,
dos adjetivos,
dos rótulos imaginários

- cometo até pleonasmos -

me rasgo
em versos estendidos
subjetivos,

na busca insana
- que não me contempla -

do poema objetivo.


[elza fraga]
...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

APOSENTADORIA DE POETA



Se tristeza pingasse
da poesia
como pinga do olho

acabaria a magia
do poema

- e todos os poetas
morreriam -

Pena,
a minha começou
a sangrar dor

e se findou.

[elza fraga]
 — se sentindo incapaz.

MUDANÇA DE RUMO





Enfim ele veio,

como um sopro de vento,
uma luz
inesperada
rasgando o firmamento

- tentando segurar o tempo -

uma estrela
no meio da manhã,

um milagre
uma promessa cumprida,
uma fita
solta no cabelo,
um sorriso de canto de boca
uma página inteira
de um livro
perdido,
um aviso
de que é permito sonhar
nesse canteiro

só não pise nos sonhos alheios.

Enfim ele veio,

trouxe sol
terras distantes
coração de amante
e abraços
de bagagem

e me fez
por fim
entender a partida
e começar a viagem
só de ida

pra fora
de mim...

nunca mais
retornarei
a ser eu mesma...

[poema de elza fraga

Com imagem de página do livro "Para comover borboletas", do poeta limoeirense Kelson Oliveira]
 — se sentindo bobamente feliz.

SEM SINAIS VITAIS


[...mas lúcida e orientada]

Reaja,

lute pela vida,
respire,

_eu tenho medo.

Plante,

colha, coma
se dignifique,

_eu tenho medo

Acorde

o sol alto lá fora
vivifica,

dá substância,

_eu tenho medo.

E de tanto ouvir
de muitos
decidi
ainda é cedo demais
pra reagir,

enfrentar
o passo a passo
que desenha vida

sair
da letargia...

Me deixem aqui
- eu e a covardia -

daqui pra frente
só quero
dormir...

[elza fraga
 — se sentindo derrotada.

ESTIAGEM



Quando meus olhos secarem
findarem na estiagem
de tanta coisa ruim
que viram pelas estradas

chorem um lago por mim.

Quando a mão não coordenada
deixar cair o meu verso
e livres não mais voarem
poemas pelo universo

escrevam estrelas por mim.

Quando a amargura selar
o sorriso dos meus lábios
e a tristeza vir cantar
cantigas de não ninares

cuspam na vida por mim.

Quando o corpo sucumbir
e desatar as amarras
abrindo a prisão da alma
pra que ela possa fugir,
enfim...

Com calma

fechem meus olhos por mim.

[elza fraga]

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

PRE-TEXTO



Sabia
- é velha a profecia -
que 
chegaria o basta

e que nunca
me acostumaria
a calmaria falsa

de águas vastas
paradas no imundo...

Mergulhei profundo
submergi
atrás de movimento

me perdi
nas correntes do fundo

e agora
não mais encontro

o mundo.

[elza fraga]

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

ALÉM DAQUI



Nua
minha alma se apresenta
e posso afirmar 
que ela é tua,
mesmo sem saber
o que virá

ainda...

O corpo
- a matéria sempre finda -
o tempo mal
resolveu transmutar
e destruir
num trabalho gradual
e de excelência,

mas a essência
está aqui
limpa e linda
assim como pedras,
montanhas, luas cheias,
a maré batendo na areia,

apesar das coisas
que já vi
duras e feias
ainda sou a menina
que pensas que fugiu...

Aos teus anseios
permito
essa melhor parte de mim

enquanto vida correr
nas fracas veias

derramo-me em ti

só assim, depois do fim,
terei certeza

que não parti.

[elza fraga]

NINGUÉM ME ENSINOU A NADAR



Remo com fé e com força
mesmo 
em águas revoltas
evito partir 
a quilha

dessa modesta canoa,

a receita é persistir
agarrada a espia

- corda que nunca desfia -

talvez - quem sabe? -
algum dia
os mares ficarão calmos
como a água dos aquários,

quem' inda estiver por aqui
pega minha embarcação
os remos que esqueci

desbrava praias sem fim

- onde
eu nem consegui -

por mim.

[elza fraga]

RETALHOS



Sua presença me inventa 
quando lê
meu pensamento, 

meu coração faz morada
na sua mão inquieta
adormecendo no tempo,

pensar em ausência
me esgarça
eriça-me os pelos
em guarda...

E me pergunto
assombrada
juntando as peças
desfeitas

de quantos você
afinal
eu sou feita?

[elza fraga]

ESPREITA


Bato continência
e saio

reverencio
seu silêncio sábio

sua ausência
sinto na carne

pois essa
desespera e arde,

o que comporta
a sutil presença

o rápido movimento

é a alma

essa espera calma
o momento

pois sabe
que
sempre existirá

o tempo.

[elza fraga -

terça-feira, 27 de agosto de 2013

ENIGMA DA SOMBRA



Venho do sol
lá onde consumo

vísceras e coração

- sonho profundo -

imagem refletida
no rés-do-chão

da pedra

que me habita.

[elza fraga]

CONTRA-PONTO


Prefiro reticência 
semente
do que 'inda
brotaria

acaso a mente
não desse traço...

Talvez vírgula,

consistente arma
espaço
que muda o verso
finge que não diz
disfarça o mal
-dito,

ou-vira anverso
ou finca a raiz

ponto afinal

só no final.

[elza fraga]

Escrito após leitura de questionamento
da poeta Nydia Bonetti

SANGUE QUE ME CORRE VEIAS



Esse sangue 
limpo, decente,

- espanhol e português -

que correu
épocas passadas
em veias ascendentes,
entrou brasis

- atravessando ocidente -

navegando por bahía,
rastejando em minas,

divino
pelo espírito santo,

não priorizou bandeira
não limitou estado
nem fronteira,

esse sangue
ainda corre
em minhas veias

não me peçam
então
moderação
passividade
paralisia

aceitem minha ousadia
de voar mais
e além
do próprio chão,

não me prendam
algemas invisíveis,

não me tatuem
- tinta indelével -
a mão,

sou tão livre quanto
o grito do meu povo

- e decidi :
Não falho na missão -

arrebento
de novo,
e de novo,

quantas vezes
se fizer necessário

os seus pérfidos grilhões,

senhora escravidão.

[elza fraga]

SOBRANÇA



Longe 
na ignorância
companheira
de infância

a inocência
ainda permitia 

e tinha sonhos

corri atrás
um a um
e vi

n'um vórtice medonho

todos ruírem
pelos dedos

agora

só tenho medo!

[elza fraga]

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

EU NÃO PERDI O MEDO DA CHUVA


Deixo que me molhe o rosto,
o cabelo 
grudado no pescoço,

o frio enterrado lá no osso,

o vento chuvoso
que me completa
em desmazelo.

A covardia e o medo
continuam aliados,

cada um de um lado
segurando os cotovelos

gastos,

a chuva passa,
só eu
- qual estátua
cinzelada em gelo -

não passo.

[elza fraga]

NÃO TEM GENTE



Sem remorsos 
me tracei degredo
me fechei no medo

- tranquei bem a porta -

Evitei a rua
apaguei o dia
acendi a lua

- me fingi de morta -

Desculpem a covardia
mas hoje

não estou pra poesia.

[elza fraga]

Imagem : Frase de Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

QUANDO O SINO CHAMAVA


Hora da obrigação
da oração
da conversa secreta
da união com o alto,

esgueirava pela nave principal
fugia pela lateral
ouvindo a cantilena
que não entendia,

vozes desencontradas
desafinavam
a ave maria,

enfim rua
enfim rosas
perfume de vida.

O cheiro da velhice
das velas
do incenso

preso na capela,

e eu tão criança
não cabia lá dentro.

Não era espírito ateu
apenas não era,

só queria ser natureza
passarinho
pedra na ribanceira
caminho diferente,

- menos gente
- menos ritual

descia correndo a ladeira
com a imaginação
armando o enredo

será que Deus afinal
perdoaria
minha heresia?

O sabor do pecado
queimava a mão
no missal apertado nos dedos,

até hoje trago as dúvidas
e o medo!

[elza fraga]


Imagem :Foto elza fraga
Igreja de São Sebastião - Espera Feliz - MG

domingo, 18 de agosto de 2013

TRIUNFO



Enquanto restarem poemas,
a esperança lutará pela sobrevivência.
E triunfará. 

elza fraga

APENAS...



Um poema 
não tem obrigação
de pegar rumo
ter noção
tomar tenência,

é só uma urgência

de desocupar o coração
das tralhas
que se engaveta,

abrir garganta
desfazer o nó,

escrito
com o sangue do poeta

e só.

CANÇÃO DE CAMINHAR NO MAR




Caminhante solitário
onde vais a caminhar?
Buscar meu barco de sonho
e colocá-lo no mar.

Caminhante por acaso
ignoras 
que é proibido navegar
no mar salgado e tristonho
com suas águas a turvar
do sangue de tantos homens
que não souberam remar?

Mesmo assim quero tentar
e se nessa travessia
o meu barco derivar
me deixo ao sabor das ondas
enquanto o corpo aguentar
rezando por calmaria,

que nada entendo de remos
nem de vento e direção
mas entendo o coração
dos donos das águas frias,

os senhores do oceano,

eles vão mudar os planos
e me deixar deslizar
por todas as noites
e os dias

até a vida passar
e afogar a rebeldia,

que a terra me dê valia
enterre meu caminhar,

aceite os restos do mar.

[elza fraga]

ABSOLVIÇÃO




[in nomine Patris]

A partir desse momento
qualquer poesia serve
para apagar 
o sofrimento

e redimir toda a culpa

desconsiderando antecedente.

Julgada totalmente
procedente.

Publique-se
e
cumpra-se.

[elza fraga]

CONSAGRAÇÃO



Quando me pegou a mão,

encostou teu coração
num abraço

e cantou alto
pra me acalentar a alma

- consegui de volta a calma -

Senti o calor que sentia
na infância
quando a mãe cobria
meu corpo magro.

E eu te consagro
amiga

para além da vida

amem!

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

PORTAS FECHADAS


[lembrar não é ver, é sofrer]

Quando partiram
os amigos, o cão,
um e outro conhecido,
rumo ao desconhecido
e fecharam a porta
para além da Terra,
assustei a solidão
com a promessa
de preencher as vagas
em aberto.

Quando voaram
os que dava como certo
no aconchego do ninho,
e também cerraram portas
desse mesmo lado
onde ainda transito
afogada
no grito,

chamei a solidão
para a última conversa:

Se queres ficar, fica,
mas calada,

só não me esqueça
essa porta aberta!

[elza fraga]

PLANO DE VOO



Pra que se ter o coração
preso no laço
de uma única paixão

se o amor
liberta mais
comporta mais

agrega mais.

Cabe mais gente
- livre -
no sentimento
de amar

do que cabe
no ar
do entardecer
aves em formação
de V...

só no abrir mão
- deixar voar -
concretizamos
o ato

da liberdade
de fato!

[elza fraga]

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

ESCONDERIJO



Quando falo
calo muito mais
palavras
que as poucas
rotas
ditas

- emudeço tantas! -

Bendita hora,
que virá,
em que palavras
não mais
se esconderão

no coração
das gargantas...

[elza fraga]