QUEM VEM COMIGO

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A SAGRADA FAMÍLIA

De repente - à noite -
lá pela madrugada
José percebeu
que estava só,
inteiramente só,
desde sempre...
Então bebeu um mundo de cachaça
antes de perguntar a Cristo:
Por que eu?!
Maria arribou, Jesus,
nem esperou a aurora,
deixando no escuro meus farrapos.
O coração deitado nos seus trapos.
A lembrança. A solidão. O desespero.
O recordar - maluco -
o macio dos seus pêlos.
O choro incontido.
A indisfarçada agonia.
O perceber, embora um pouco tarde,
que esta ausência que me queima,
que me arde,
sempre foi a mais constante companhia.
A alma solitária.
O ódio da vadia!
E esta profana prece numa noite fria
orando a falta que nem eu sabia
que ela faria:
Volta! Volta por Cristo.
Pela insanidade
de gozar com as minhas taras.
Pela maldade
d'eu mordiscar o bico do seu seio.
Pela cachaça que lhe dou de graça
e ainda levo, de bandeja, no seu leito.
Volta por toda a minha covardia
de não dormir sozinho um só dia.
Por ilusão. Por medo. Por saudade.
Por tesão. Por paixão. Por caridade.
Por compaixão. Por pura ironia.
Volta por vingança...
Por bondade...
Mas volta, por favor,
volta Maria!

(Elza Fraga)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um doce pelo seu pensamento